Crítica: 'O Quebra-Cabeça' é belo filme sobre fortalecimento feminino

16/11/2018

A arte, seja ela em formato literário, cinematográfico ou qualquer outra configuração, sempre teve uma predileção por trabalhar o lado extremo das polaridades. Afinal, ficar no meio termo não apenas pode ser mais difícil de explorar, como também tem chances de se tornar monótono com grande facilidade. O longa-metragem O Quebra-Cabeça aceitou a premissa como desafio e acabou por desenvolver um grande filme. A partir da vida insatisfeita, porém aceitável de Agnes, o espectador é conduzido pelo seu caminho à transformação, que, nesse caso, significa ressignificar determinadas coisas e mudar sua forma de enxergar à vida e as circunstâncias que a rodeiam.

 

Kelly Macdonald (Onde os Fracos Não Têm Vezé quem dá vida à protagonista e também quem carrega o longa nas costas. Em pouco menos de duas horas, ela consegue transmitir uma frustração tão grande que nem a própria personagem tinha consciência de existir. Sua rotina se resume à fazer tarefas domésticas para o marido, Louie (David Denman), e seus dois filhos. A primeira cena consegue causar um estranhamento no público justamente por isso: uma festa de aniversário, em que Agnes está servindo à todos, arrumando a casa, fazendo sala para os amigos do esposo e, no final, descobre-se que a comemoração é para ela. Sua família está claramente inserida numa cultura machista, em que é obrigação da mulher realizar determinadas funções, apenas pelo fato de ser mulher. Mesmo com uma clara insatisfação com o casamento, este não está fadado ao fracasso, como se pode imaginar. O machismo, neste caso, aparece mais como uma reprodução do que uma forma intencional de ofender.

Após ganhar um quebra-cabeça de 1.000 peças de aniversário, Agnes percebe um talento totalmente desconhecido até então. Sua facilidade em juntar as peças lhe permite reconhecer que é talentosa, que tem potencial para algo além de exercer tarefas da casa. Entusiasmada com a descoberta, sai de sua zona de conforto e vai até Manhattan comprar outro. Lá, encontra um aviso de um rapaz que procura parceiro para competir num Campeonato de Quebra-Cabeça. Mesmo apreensiva, vai atrás dele e a história se desenrola a partir daí.

 

Por incrível que pareça, O Quebra-Cabeça não é um filme óbvio. O diretor Mark Turtletaub, produtor de Pequena Miss Sunshine, conseguiu desenvolver a personagem principal de maneira lenta, porém gradual. Sua transformação é bonita de se ver. O jogo nada mais é do que um instrumento que permitiu com que Agnes enxergasse em si mesma outras possibilidades e, com isso, tornar-se outra pessoa. Uma mulher fortalecida, ainda que precise enfrentar os mesmos problemas de antes.

 

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