Crítica: 'Okja', da Netflix, tem potencial para ser clássico do cinema

03/07/2017

Logo nos créditos iniciais, Okja deixa claro que não é mais uma produção qualquer da Netflix.  Pelo contrário: o filme de Bong Joon-ho (do fantástico Expresso do Amanhã) recebeu uma atenção mais que especial da plataforma de streaming, tendo Tilda Swinton, Brad Pitt e até Ted Sarandos  -- um dos chefões da Netflix -- na produção. E logo que o filme começa a apresentar as primeiras cenas, todo este cuidado é refletido na tela,  com imagens poéticas e uma história com potencial para ser um novo clássico.

 

A história começa com Lucy Mirando (Tilda Swinton) apresentando um superporco,  espécia criada por sua empresa  para aumentar a produção de carne em seu frigorífico,  uma grande empresa de escala global. Para desenvolver o animal, porém, Mirando distribui 26 espécimes para fazendeiros em diversas partes do mundo. E um dos que recebe o animal é Hee Bong, um  idoso coreano e que é responsável por sua neta, a jovem Mija  (Seo-Hyun Ahn).  Criada sozinha e  longe da civilização, a menina desenvolve laços com o porco e até dá o nome de Okja.

 

Assim, o primeiro ato do longa-metragem - onde é apresentada a relação de Mija com Okja -- é de encher os olhos. Além de um cuidado visual excepcional com o ambiente onde as cenas passam e Okja vive,  há um apuro estético muito grande em relação ao suíno, que lembra uma mistura de hipopótamo, porco e basset hound -- aquele cachorro de orelhas grandes e caídas. Além disso, o olhar de Okja é penetrante e cheio de significado, criando um vínculo afetivo real entre a menina e o animal, remetendo ao personagens do Studio Ghibli.

 

As cenas bucólicas, porém, logo são substituídas pelo primeiro anticlímax da história:  a chegada da equipe da Mirando ao sítio de  Hee Bong e Mija,  onde um estranho apresentador de TV Johnny Wilcox (Jake Gyllenhaal, irreconhecível) surge para avaliar  a  espécime coreana e saber se ela já está apta  a participar de um concurso dos melhores porcos,  nos Estados Unidos.  Obviamente, a superporca que dá título ao filme é selecionada e enviada para o outro lado do mundo,  onde será testada e, por fim, morta para ser consumida.

E é neste ponto que a trama ganha tração e esquece todo clima bucólico do primeiro ato. Começa uma verdadeira corrida, onde Mija tenta resgatar Okja das garras da Mirando enquanto um grupo de jovens tentar "libertar" Okja para mostrar ao mundo os problemas de se comer carne  e  o que há por trás de frigoríficos e abatedouros. O diretor Bong Joon-ho não poupa artifícios para criticar toda indústria da carne, mostrando o cinismo e as situações absurdas que circundam as pessoas envolvidas neste processo.

 

O ápice da crítica, ainda mais escrachada do que em Expresso do Amanhã, está nas personagens  de Tilda Swinton e Jake Gyllenhaal -- este, aliás, numa passagem dolorosa e que obriga qualquer um a pausar o vídeo. Exagerados e caricatos propositalmente, as personagens fazem com que os olhos de quem assiste se abram e mergulhe em lágrimas a cada atitude tomada. São situações e momentos levados ao absurdo,  mas que mostram o que há por trás de toda carne que chega ao nosso prato.

 

O grande destaque, porém, está na relação que é criada entre Mija e Okja.   A jovem atriz coreana Seo-Hyun Ahn consegue passar desespero e a aflição de forma verdadeira,  ainda que seu idioma seja estranho para grande parte da audiência. Certas atitudes e comportamentos  entre a porca e menina fazem com que a cada reencontro entre elas, o espectador seja jogado para as cenas que iniciam o filme, cristalizadas na memória de quem assiste ao longa-metragem. Impossível sair da projeção sem derrubar algumas lágrimas.

 

Os únicos erros ao longo da história residem nas personagem de Paul Dano e Lilly Collins,que são relegados a papéis coadjuvantes.  Não há aprofundamento de personagens e os objetivos daquele grupo que protege os animais não são bem explicados   --  ainda que o espectador acabe torcendo naturalmente pelo êxito de seus objetivos. Além disso, a trilha sonora parece faltar em alguns dos momentos da história,  diminuindo o impacto de algumas ações e emocionando menos do que ela deveria.

 

O final do filme, porém, recompensa o espectador e redime todos os erros, que são esquecidos em uma maré de lágrimas e emoção, principalmente por conta de uma cena bem no final, que envolve a atitude de um outro superporco.  Quando os créditos sobem, impossível não  refletir sobre toda a indústria da carne -- ainda que não seja um filme doutrinário, como o documentário Terráqueos. É um filme completo, que deve agradar crianças, adolescentes, adultos e idosos,sejam eles veganos, carnívoros e vegetarianos.

 

Por fim, Bong Joon-ho consegue se consolidar na cena internacional, criando uma filmografia com coerência e que faz crítica ao atual estado geopolítico mundial.Do outro lado da equação, enquanto isso, Netflix faz  seu primeiro trabalho de longa-metragem competente desde Beasts of No Nation.  É a redenção da plataforma de streaming  e um grandioso passo em direção à estatueta do Oscar, que pode abalar o mundo do cinema. Mas independente disso tudo, é dever agradecer à Netflix por ter trazido ao mundo a história de Okja. Nasce um novo clássico.

 

Obs.: Tem cenas pós-créditos! Não acrescenta em nada, mas dá um bom final para personagens que foram brevemente esquecidos na trama.

 

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