Crítica: 'Onde Está Você, João Gilberto?' é documentário bom, mas irritante

20/08/2018

João Gilberto. Dono de uma personalidade de difícil compreensão, o músico foi uma das principais mentes por trás da Bossa Nova, que deu ao Brasil canções como Garota de IpanemaCorcovado Chega de Saudade. Ainda que grande parte das composições do gênero tenha vindo de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, foi a voz e o violão de João que deram o tom do movimento e mostraram ao mundo a genuína forma da música popular brasileira.

 

No entanto, João se fechou. Fechou-se para o mundo, para a música, para a imprensa e de si mesmo. Há anos vive recluso num quarto de hotel, sem dar entrevistas e sem receber pessoas -- ele nem ao menos fala com o entregador de comida, que recebe o dinheiro pelo vão da porta. Essa reclusão já inspirou, em 2011, um jornalista alemão, Marc Fisher, a vir ao País para investigar o sumiço de João, resultando no ótimo livro Ho-ba-la-lá.

 

Agora, é a vez do documentarista suíço Georges Gachot sair em busca de João. Diretor  do bom O Samba, o cineasta usa a base do livro de Marc Fisher -- que se suicidou pouco antes da publicação do livro -- e, praticamente, refaz os passos do jornalista para tentar manter algum contato com o músico. É um trabalho que honra o que já foi feito anteriormente, usando até trechos inteiros do que foi escrito por Fisher, mas com um aspecto muito próprio empregado por Gachot. É mais do que uma adaptação de mídias.

 

Para isso, ele cria uma narrativa complexa. Ainda que siga uma jornada bem lógica e bem explicitada em tela, a trama é uma costura dentre o que Fisher viveu e o que Gachot está produzindo. Leituras de trechos, com imagens do Rio sombreado e com as janelas pontuando o cenário, se alternam com algumas boas entrevistas com grandes nomes da música -- João Donato, Marcos Valle, Roberto Menescal e Miúcha, também ex-esposa de João Gilberto, são alguns dos nomes ouvidos durante a jornada audiovisual.

Essa costura acaba cansando um pouco, já que se torna exaustiva e, ás vezes, repetitiva. No entanto, os frutos colhidos por Gachot -- que também conseguiu emplacar uma fotografia maravilhosa durante toda a produção -- se sobressaem e fica evidente a importância histórica daquele produto. A única coisa que atrapalha um pouco é a grave dificuldade do cineasta em se comunicar com alguns dos entrevistados. A conversa com João Donato é totalmente sem pé, nem cabeça. Ninguém se entender, mas todo mundo dá risada.

 

Outro ponto que atrapalha o andamento do documentário -- e que também acontece com o livro de Fisher -- é uma irritação natural, crescente e genuína. Por mais que João deva ter seus motivos para se isolar, é difícil não sentir certa irritação e nervosismo com tamanha necessidade de escapar da vida, das pessoas. É um niilismo real e que não causa simpatia. Difícil entender o que custa atender um telefonema por alguns poucos minutos ou, ainda, enviar uma carta. Qualquer coisa. Não dá pra comprar toda a situação.

 

Mas, sem dúvidas, Onde Está Você, João Gilberto? passa por cima disso tudo e se prova como um bom e importante documento sobre a música popular brasileira e seus integrantes. Por mais que cause irritação e se faça um pouco confuso nas entrevistas, é bem feito, bem dirigido, bem fotografado e muito bem produzido. Sem falar no roteiro, inteligente e extremamente honesto com o material produzido antes por Fisher. Bom para fãs da boa música brasileira.

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