Crítica: 'Parasita', de Bong Joon Ho, é um dos melhores filmes do ano

17/10/2019

Só consigo pensar em duas palavras para Parasita: urgente e inesquecível. Me parece extremamente clichê quando alguém que adora cinema fala com empolgação que algum filme foi “o melhor filme que já viu na vida” mas talvez, por ora, eu possa falar isso com validez. 

 

Vencedora do mais recente Palma de Ouro no Festival de Cannes, a nova obra de Bong Joon Ho (Okja) provoca muito. Escrever sobre Parasita é uma tarefa meticulosa. Me recuso a ponderar os momentos de ápice do filme porque não há uma maneira de analisá-los sem deixar spoilers que podem estragar um pouco da experiência encantadora do espectador.

 

É possível sentir o gostinho de cada um dos gêneros ali muito bem trabalhados pelo diretor logo no início do longa, quando conhecemos a família centro da história e o problema trabalhado e de certa forma, solucionado, ao longo do filme: o desemprego e a pobreza de todos os integrantes dela.

 

Há mais uma coisa que posso afirmar sem estragar muito por aqui: quando você acha que dominou o filme e entendeu aonde ele quer chegar, ele te mostra o contrário. O filme simplesmente não para de crescer.

 

Parasita é surpresa em cima de surpresa e um “clique” na mente atrás do outro, num ritmo progressista de tensão e humor negro que não se perdem ou se confundem em momento algum. O roteiro do filme se abre com perfeição e se fecha da mesma forma.

 

O drama tragicômico do filme começa quando o filho mais velho da família protagonista, Ki Woo, consegue um emprego de professor particular da jovem Da-Hye Park, a primogênita da família Park que, do lado totalmente oposto de Ki Woo, desfrutam muitos privilégios e uma conta bancária recheadíssima. Dito isso, dá pra afirmar que a obra prima sul-coreana é uma sátira social imersa num mix de gêneros escravizantes. Se não fosse necessário piscar, eu não piscaria.

Lançado não muito tempo depois do aclamado Nós, de Jordan Peele, Parasita faz uma expressão nítida da divisão classificatória social melhor que Peele. E olha que isso sai da boca de alguém que tem um fascínio enorme pelas obras do diretor norte-americano. Mas dessa vez, ficou difícil de competir com Bong Joon Ho. Até no título sutil, mas que muito diz, o cara acertou.

 

Entre muitos picos de thriller psicológico e um humor que passa por todas as fases, desde o riso frouxo até aquele carregado de criticismo, Parasita é uma experiência única. Incomoda, faz rir, surpreende em um nível que poucas obras modernas fizeram. Para mim, Joon Ho provou sua genialidade ao nos dar uma peça de entretenimento que trata de uma camada social que exige um certo tato ao ser abordada. Um pequeno deslize faria de Parasita um erro enorme, mas não.

 

O humor de longa-metragem não machuca. Tudo foi cuidado com muita atenção, de forma a despertar tudo que há entre a risada e a ira do espectador, da forma mais pura de divertimento possível, com um incômodo que não estraga a inocência dos alívios cômicos usados por Joon Ho.

 

Quase nos minutos finais do filme, o ator principal do filme é responsável pelo enquadramento mais poderoso que já assisti. Nos olhos dele, a raiva social implícita ao longo das mais de 2 horas de filme se torna um verdadeiro raio laser que atinge o outro lado da telona.

 

Para dar o toque final, Bong Joon Ho fez a cena em câmera lenta. É um take inesquecível e eu poderia discuti-lo na mesa de todos os bares que eu frequentar desde hoje até o resto dos meus dias. Vai ser muito difícil expulsar Parasita do meu sub-consciente.

 

Como se já não bastasse os 120 minutos de puro acertos, o final de Parasita é delicado, poético e a cereja do sundae. Quando os créditos começaram a subir, eu estava exausta. É um filme que te cansa emocionalmente. Um plot tão poderoso quanto a crítica nele colocada. Um balanço perfeito de emoções opostas que, nas mãos de qualquer diretor poderia ser um verdadeiro desastre insosso mas nas mãos de Bong Joon Ho virou uma obra memorável e inesquecível.

 

(*) Filme assistido durante cobertura especial da 43ª Mostra Internacional de São Paulo.

 

 

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