Crítica: 'Quase Memória' é filme eclipsado pelo livro de Cony

19/04/2018

Adaptações nunca são fáceis. Afinal, cinema e literatura são mídias completamente opostas e não facilitam o trabalho de quem precisa transpor uma história de um gênero para outro -- o mesmo vale para as adaptações de games e quadrinhos, claro. Quase Memória também é vítima desta dificuldade. Com um orçamento baixíssimo,  o diretor Ruy Guerra não pode ir fundo na história do falecido Carlos Heitor Cony, precisando encontrar subterfúgios pra não se render. O resultado é interessante, como toda obra do cineasta, mas acaba eclipsado por sua história original.

 

A trama do filme  apenas esbarra na história de Carlos Heitor Cony,  contando com dezenas de adaptações  e passagens  totalmente diferentes  da obra literária. Mas chega de fazer as insuportáveis comparações por hora. O centro da história é o personagem Carlos (vivido, de maneira competentíssima, por Tony Ramos), um homem de  meia-idade atormentado e que não consegue se lembrar de seu passado. Ele é confrontado por suas memórias -- ou pelas quase memórias, como o título sugere -- quando recebe um misterioso pacote e passa a ver sua versão mais jovem.

 

Desse diálogo entre o Carlos velho e esquecido com o Carlos ainda sonhador, vivido por um inspirado Charles Fricks (Nise), nasce o fio condutor do longa-metragem. As memórias vêm e vão, principalmente  no que concerne sobre o pai de Carlos, o jornalista sonhador Ernesto (vivo por João Miguel, de 3%),  e sobre alguns pontos marcantes da infância, como o balão e os amigos do pai.

 

Guerra, mesmo com um orçamento limitadíssimo, faz mágica e não fica no lugar-comum de histórias de memórias.  Ao invés de colocar o personagem apenas se relembrando dos fatos com uma narração em off, o cineasta cria o tal embate entre o Carlos do presente e o Carlos do passado.  "Ele é o protagonista e  o antagonista de sua própria história",  justificou Guerra em entrevista coletiva em São Paulo. Além disso, no lugar de lembranças claras, em preto e branco, Guerra opta  por uma representação onírica da infância, fazendo jus ao olhar infantil sobre fatos.

O realismo fantástico, então,  é a saída de Guerra para incrementar a narrativa e evitar, com elegância,  alguns temas presentes no livro de Cony e que deixariam o orçamento bem mais inflado --  como o jornalismo na era de Getúlio.  A teatralidade dos atores também ajuda pra criar  o clima  necessário, ainda que ela seja exagerada e um tanto quanto irritável em umas passagens. As passagens desconexas e entrecortadas, aprimoradas pela edição luxuosa do filme, também ajudam a dar essa impressão  -- ainda que a trama, com isso, se torne muito cansativa.

 

Os atores, no entanto, estão operante no geral. João Miguel faz um tipo excêntrico e irreal, o que dificulta qualquer identificação.  O mesmo vale para Mariana Ximenes, um tanto quanto apagada. É Tony Ramos, porém, que rouba a cena.  Ele está absolutamente magnífico como o homem que tenta recuperar suas memórias. Charles Fricks, como já disse, está inspirado, mas acaba sendo apagado pela atuação arrebatadora de Tony. Fazia tempo que ele não era tão valorizado num papel.

 

O grande problema  geral de  Quase Memória, então, é a sombra constante do romance de Cony. Para quem leu o livro, vai sentir que a história  é apenas uma leitura possível em um mar de possibilidades que a obra permite.  Fica a sensação pulsante que faltou algo, ainda que o longa-metragem tenha qualidades técnicas louváveis. E para quem não leu, também fica a sensação de que o filme foi eclipsado de alguma forma. Afinal, as tentativas de pôr a produção dentro  do orçamento são visíveis em tela, deixando claro que a história foi muito encurtada.

 

Quase Memória é um bom filme mas que, no final, acaba sendo apenas uma leitura distante e muito pessoal do romance de Cony.  O realismo fantástico está lá, mas falta a magia. Está, também, o olhar da infância,  mas sem a beleza característica do período.  Está o tal pacote misterioso, mas sem a investigação de suas possibilidades. É um bom filme, de fato, mas é difícil não tecer comparações com uma obra tão essencial da literatura brasileira. E é nesse ponto que o filme, infelizmente, fica a desejar.  Faltou história, faltou orçamento e faltou um pouco mais de Cony.

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