Crítica: 'Quem Você Pensa que Sou' é forte drama psicológico

11/06/2019

Claire (Juliette Binoche), uma professora divorciada de 50 anos, cria um perfil falso no Facebook como sendo uma mulher de 24 anos. Ela está frustrada com os relacionamentos fugazes que construiu e, por isso, quer buscar alternativas com homens mais jovens. Assim, ela acaba provocando o início de uma acalorada conversa envolvendo um jovem fotógrafo (François Civil). É o início de uma relação complicada, e tumultuada, repleta de mentiras, revelações, reviravoltas e momentos muito tensos.

 

Esta é a trama do excelente drama psicológico Quem Você Pensa que Sou, dirigido pelo francês Safy Nebbou (Dumas). Seguindo a linha narrativa de uma consulta em uma psicóloga, o longa-metragem desnuda a personagem de Binoche na tela de maneira eficaz. Conforme ela conversa com sua terapeuta (bem interpretada por Nicole Garcia), o filme avança. E, como é a mente e a memória de todo mundo, há mentiras, falsas impressões, atropelos. Afinal, é como se Claire estivesse narrando toda essa história.

 

Nebbou não pensa duas vezes antes de chocar o público com todos os artifícios que encontrar. Há cenas de sexo pesadíssimas -- uma envolvendo Binoche, num carro, é particularmente impactante -- e sacadas de roteiro que chamam a atenção. Principalmente reviravoltas, que é algo um tanto quanto ignorado no cinema francês. 

O grande destaque, porém, é Binoche. Não se vê a atriz tão à vontade e tão bem em cena desde Acima das Nuvens, de 2014. A atriz se entrega e toma o filme para si, fazendo com que o espectador e fã da atriz esqueça de atuações recentes pouco memoráveis, como em O Vigilante do Amanhã Os 33. O melhor é esta Binoche daqui: entregue, em seu idioma, pronta para o que der e vier. Civil (Assim na Terra Como no Inferno) é um galã em ascensão, mas aqui tem pouco a mostrar. Garcia (Meu Tio da América) vai bem.

 

O roteiro de Nebbou e de Julie Peyr (A Excêntrica Família de Gaspard) acerta na maior parte do tempo, principalmente por conta dessa característica de colocar tudo na conta da memória de Claire. Ele é ritmado, não dá espaço para sonolência e apresenta uma boa conjunção de drama, suspense e, de vez em quando, humor. No entanto, há um escorregão na parte final do filme, envolvendo a psicóloga, que é difícil de aceitar. Para quem tem um pouco de noção de código de ética da profissão, esse erro vai ficar claro. Uma única mudança de cena, uma pequena alteração de roteiro, resolveria tudo ali.

 

Mas, ainda assim, Quem Você Pensa Que Sou é um ótimo filme. A junção de Binoche em ótima forma, um diretor empolgado e um roteiro interessantíssimo faz com que o longa-metragem seja um dos melhores filmes franceses da safra recente. Dificilmente será lembrado em premiações futuras, claro, mas deverá sempre voltar a mente de quem o assistir. Afinal, boas histórias ficam na cabeça. Por mais diferentes que elas sejam.

 

* Filme assistido durante a cobertura especial do Festival Varilux de Cinema Francês 2019.

 

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