Crítica: 'Robin Hood: A Origem' é aventura sem personalidade

29/11/2018

É incrível como Robin Hood é um personagem recorrente nos cinemas. O "ladrão que rouba dos ricos para dar aos pobres" já foi personagem de um longa com Russel Crowe, de uma animação da Disney, de um filme temático com Tom & Jerry e até de uma estranha comédia dos anos 1990 chamada A Louca! Louca História de Robin Hood. Agora, quando parece que não há mais espaço para criar em cima do personagem, chega aos cinemas a produção Robin Hood: A Origem, que se prontifica a contar como foi o surgimento desse mito inglês e de como, aos poucos, se tornou o famoso ladrão.

 

O papel de Hood, que já foi de Crowe, Kevin Costner, Richard Greene e Errol Flynn, dessa vez cai nas mãos de Taron Egerton (Kingsman). Não dá pra dizer que ele é o mais talentoso da lista, mas tem carisma e sabe entrar no espírito do personagem e no que a história exige. Afinal, nem sempre ele é o justo ladrão. O longa-metragem começa com Robin, lorde de Nottingham, se apaixonando por Marian (Eve Hewson) e, imediatamente depois, sendo enviado para as Cruzadas pelo Xerife (Ben Mendelsohn). É na guerra que ele conhece John (Jamie Foxx) e lá que acende a fagulha desse seu espírito justiceiro.

 

O roteiro, como a maioria dos blockbusters recentes, se complica mais do que deveria. Escrito pelos estreantes Ben Chandler e David James Kelly, a história até tenta ser atraente, mas se torna o calcanhar de Aquiles do longa. Os diálogos são deveras bregas -- principalmente entre Hewson (Ponte dos Espiões) e Egerton -- e as situações clichês se amontoam. A mocinha que troca o marido achando que ele está morto, o aprendizado com um mestre pouco moral, o vilão que só quer poder e poder e mais poder. Uma trama que já foi contada tantas vezes não permite tantos clichês. Se torna chato.

Além disso, falta personalidade para o diretor Otto Bathurst (responsável pelo primeiro episódio da série Black Mirror). Ao contrário do cineasta Guy Ritchie, que aplicou uma farta dose de originalidade ao recontar a história do mito do Rei Arthur, o responsável por Robin Hood: A Origem não sabe deixar sua marca impressa no longa-metragem, fazendo com que quase tudo seja esquecível: desde a ambientação, passando pelos personagens e indo até as batalhas. Quando é pra ter grandiosidade, pequenez. Quando é pra ter ousadia, clichê. Quando é pra ter boas atuações, atores ruins e sem carisma.

 

Neste ponto da história de Robin Hood, quando a trama já virou desenho infantil, filmes diversos e até se consagrou como clássico, talvez fosse melhor experimentar algo ousado, como uma dose extra de violência -- aqui, porém, as flechas fazem ferimentos secos, sem produzir nem uma gota de sangue. Faltou coragem para Bathurst e seus produtores irem além -- e olha que são Jennifer Davisson, de O Regresso; e Leonardo diCaprio, o próprio. Talvez essa abordagem tenha nascido da produtora Lionsgate.

 

O que funciona em partes aqui, e eleva um pouco a qualidade da narrativa, é o elenco. Egerton, como já ressaltado, tem carisma e sabe entregar a atuação certa nas horas certas -- um momento em particular causa riso sincero. Jamie Foxx (Baby Driver) é o outro acerto encaixado no papel, dando dinamicidade e leveza à trama. Fica a vontade real de ver um pouco mais de seu personagem. Já Ben Mendelsohn parece estar reprisando seu papel de Jogador Número 1 e de Rogue One. As mesmas caretas, a mesma entonação, o mesmo ar vilanesco. Ele precisa mudar seu enfoque rapidamente.

 

As cenas de ação também são interessantes, apesar dos efeitos especiais capengas. Parece que faltou dinheiro para terminar de renderizar algumas sequências. E a edição, feita por Chris Barwell e Joe Hutshing, deve dividir opiniões do público: alguns devem achar rápida demais e sem tempo pra ação; outros devem achar ágil e interessante.

 

Robin Hood: A Origem, assim, é apenas mais um filme sobre o personagem, que vai se perder nessa maré de produções já feitas sobre o famoso ladrão. Dificilmente a franquia, como é desejo dos responsáveis, vai se tornar realidade, e o filme não deve ficar marcado na memória das pessoas. Falta personalidade, falta carisma, falta uma boa história a ser contada. Mas fica mais uma boa lição para as produtoras: às vezes, é melhor investir em originalidade e arriscar um pouco mais do que ficar no lugar-comum novamente. O resultado, como pode ser visto neste filme, não é melhor que a frustração.

 

 

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