Crítica: 'Rocketman' coloca o astro Elton John no divã

28/05/2019

Na primeira cena do filme Rocketman, dirigido por Dexter Fletcher -- o mesmo que terminou as filmagens de Bohemian Rhapsody após a demissão de Bryan Singer --, o astro Elton John (Taron Egerton) atravessa um corredor, entra em uma sala e senta numa roda com outras pessoas em uma espécie de Alcoólicos Anônimos. Ali, ele conta sua trajetória desde criança, quando era um garoto tímido chamado Reginald Dwight, que aprendia as primeiras notas de piano, até os percalços de vícios da vida de famoso.

 

Fletcher, ancorado no ótimo roteiro de Lee Hall, narra acertadamente a trajetória entre a criança e o astro de forma alucinante e vertiginosa. É como um caleidoscópio de cores berrantes e intensas que procura dar conta da vida de excessos, carências e traumas psicológicos de Elton John, um dos maiores e mais longevos artistas da música pop mundial e que cometeu excessos de todos tipos, como drogas, sexo, álcool e suicídio.

 

Não é uma cinebiografia tradicional, nos moldes de Bohemian Rhapsody, do próprio cineasta. Mas sim um musical, com tons de ópera-rock, testados em filmes como The Wall (1982) e Evita (1996), ambos dirigidos por Alan Parker, além obras mais híbridas como Moulin Rouge!, de Baz Luhrman (2001), Across the Universe, de Julie Taymor (2007) e o mais recente Jersey Boys – Em Busca da Música, de Clint Eastwood (2014).

 

Essa junção narrativa entre um musical tradicional e uma ópera-rock, impressa em Rocketman de forma fragmentada e relatada em primeira pessoa, não necessariamente é dita como uma verdade absoluta dos fatos. É, na verdade, a maneira como ele enxergou tudo aquilo, como contemplou sua vida regada muito a sexo, droga e rock'n'roll, sem precisar explicitar muito nas cenas de sexo e no uso de cocaína, o que poderia inviabilizar o projeto.

 

O filme, no entanto, não se furta em mostrar uma forte cena de sexo forte entre Elton (Taron Egerton) e o seu empresário sem escrúpulo, John Reid (Richard Madden), quando eles se conhecem no início em 1970, numa festa hippie em Los Angeles. Além de metaforizar as orgias sexuais que o cantor participou  em um belo número musical, onde o cantor desliza por mãos de homens e mulheres numa espécie de show privado.

O tom caleidoscópico imprime todas as cenas musicais do filme, dando conta narrativamente da vida alucinada e sem freios do cantor e até por tentativas de suicídio, como na deslumbrante cena em que ele toma diversos comprimidos no seu quarto e encontra seu "eu do passado" no fundo da piscina, até ser socorrido por algumas pessoas que o coloca numa maca. No final disso, Elton acaba num estádio lotado cantando um de seus maiores sucessos e que dá título ao filme, Rocketman.

 

Grande parte da força e empatia do filme se deve a interpretação visceral e cheia de camadas do ator Taron Egerton (Kingsman), que consegue atingir as transformações pelo qual o astro passa ao longo da vida. Um homem atormentado por uma infância sem amor, com um pai ausente e rígido e uma mãe ególatra e insensível, que passou grande parte da vida tendo que esconder sua sexualidade; mesmo que tenha revelado em 1976 que era bissexual, se casou em 1984 com a engenheira de som Renale Blauel, união que durou até 1988.

 

É sabido que Elton John acompanhou todos os passos da produção do filme, do roteiro até as filmagens, que aconteceram entre agosto a dezembro de 2018. Isso poderia ter sido um problema, caso o astro quisesse interferir nas revelações dolorosas de sua vida, como o abuso de drogas, as tentativas de suicídio e a busca desenfreada por sexo. Mas, pelo contrário, mesmo que de forma metafórica e ilustrativa, o astro se desnuda, mostrando um retrato doloroso e pungente de uma pessoa incapacitada de se aceitar, de se gostar, preferindo se esconder atrás dos excessos e da persona artística, e tendo que passar por abusos de toda espécie, inclusive do seu empresário John Reid.

 

As  grandes canções entram no filme de maneira orgânica e como eficazes dispositivos narrativos, elevando o tom de comoção sem pieguices das passagens dolorosas de sua vida, com na já citada Rocketman; em Crocodile Rock, que ele canta no primeiro show no lendário clube Troubadour, em Los Angeles, em 1970, que faz a plateia literalmente “flutuar” ao som psicodélico da sua música; e em especial em Goodbye Yellow Brick Road, num momento crucial da carreira, quando o cantor abandona um show em Nova York, e decide se internar por conta própria em uma clínica para tratar da dependência química, se livrando da autodestruição certa e de fantasmas traumáticos do passado.

 

Rocketman é ao mesmo tempo um filme para os iniciados na carreira artística de Elton John e um musical biográfico comovente para os fãs do astro, que iniciou uma carreira de sucesso que durará mais de 50 anos, desde que lançou o primeiro disco em 1969, até o final dela em 2021, ano de encerramento de sua última turnê Farewall Yellow Brick Road, que ele iniciou em setembro de 2018, na Pensilvânia, nos Estados Unidos.

 

Um trecho da música Goodbye Yellow Brick Road quase no final do filme serve como resposta de Elton John aos seus inúmeros fãs ao redor do mundo que não aceitam sua aposentadoria em 2021, que segundo o astro revelou em entrevista, será para ficar ao lado do marido, David Furnish. “Você sabe que não pode me segurar eternamente/Eu não assinei contrato com você/Eu não sou um presente para meus amigos abrirem/Este rapaz é jovem demais para contar as tristezas”.

 

 

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