Crítica: ‘Sem Fôlego’ faz jus ao nome e entrega trama tímida e apática

26/01/2018

Quando lançou Carol, em 2015, o cineasta norte-americano Todd Haynes surpreendeu com um filme cheio de elegância. Baseado no ótimo livro de Patricia Highsmith, o longa ganhou fãs apaixonados e se destacou nas premiações -- ainda que tenha sido ofuscado por filmes como Spotlight e A Grande Aposta. Agora, Haynes volta para o comando de um longa com Sem Fôlego, filme com Julianne Moore e que, infelizmente, não mantém o vigor de seu filme anterior.

 

Sem Fôlego, basicamente, corre em duas linhas temporais: na primeira temos Rose, uma garotinha muda da década de 1920 que sofre pelo distanciamento de sua mãe, uma estrela do cinema (Julianne Moore); já na segunda história temos Ben, uma menininho que sofre sem saber o nome do pai e que, depois de ser atingido pelo reflexo de um raio, perde a voz. Duas histórias distintas, separadas pelo tempo, mas que se cruzam pela proximidade de suas realidades.

 

Primeiro, há de se destacar o design de produção e todo apuro técnico para recriar as duas décadas em que o filme se passa. Mark Friedberg (Sinédoque, Nova York), Ryan Heck (O Curioso Caso de Benjamin Button) e Kim Jennings (Ponte dos Espiões) fazem um trabalho excepcional na criação dos cenários, figurinos e ambientação. A cinematografia do incrível Edward Lachman (Virgens Suicidas) chama a atenção pela criatividade e homenagem ao cinema. Impecável.

Depois disso, no entanto, as coisas desmoronam. A direção de  Haynes, antes delicada e cheia de significado, está perdida. Ele não consegue dar ritmo à história, transformando os acontecimentos quase que em um Moonrise Kingdom sério demais. A história demora a pegar algum ritmo e, quando pega, perde a força com um direção tímida e apática, que só se expressa por meio de sua fotografia. Não há nada destacável aqui que chame a atenção do público.

 

As atuações também não funcionam. Julianne Moore está extremamente mal dirigida. Ao invés de fazer uma homenagem às atrizes do cinema mudo, ela cria uma personagem sem aprofundamento e que só causa vergonha na tela. As crianças também se esforçam, mas nada sai dali. São só atuações forçadas em cima de dezenas de diálogos artificiais que não se sustentam. É um desperdício. Só Michelle Williams, que aparece pouquíssimo, que tem uma boa atuação.

 

O grande responsável por todos esses problemas residem no roteiro. Escrito pelo irregular Brian Selznick (autor do livro que inspirou Sem Fôlego e responsável pelo roteiro de A Invenção de Hugo Cabret), a trama é inconsistente e sem fôlego, fazendo jus ao estranho título brasileiro. São só duas crianças indo pra lá e pra cá com uma pontada de emoção. Não há gatilhos emocionais, grandes complicações. São só tramas aventurescas sem um grande motivo.

 

Sem Fôlego, então, é um filme apático que faz jus ao nome. Nada ali funciona direito, com exceção do design de produção. Elenco, direção, roteiro. Tudo parece ter entrado em uma espiral de confusão, resultando num filme desordenado e sem muito sentido para onde ir. É uma pena. Esperava com ansiedade o novo trabalho de Haynes. Espero que ele encontre o seu caminho novamente. O Cinema precisa de mais Carol e de menos Sem Fôlego. Valeu só pela tentativa

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