Crítica: ‘Thelma’ é retrato sufocante da libertação feminina

01/12/2017

A Noruega não fez uma escolha fácil para o Oscar. Pelo contrário: o filme indicado, Thelma, é um soco no estômago, uma história que mexe com o âmago de seus espectadores e que dificilmente irá abocanhar uma vaga na disputa pelo Melhor Filme Estrangeiro -- afinal, cada vez mais a Academia fica longe de polêmicas. No entanto, ainda assim, seria um crime se o filme não tivesse sido escolhido para a competição. Afinal, o longa é original, bem produzido e muito, muito inteligente.

 

A história acompanha Thelma (Eili Harboe), uma garota de família católica que, mesmo na faculdade e longe dos seus pais, ainda não conseguiu desfazer as amarras que a prendem em um mundo conservador e que a inibe de ir em festas, de beber, de experimentar e se apaixonar. As coisas só mudam quando a garota tem uma espécie de ataque epilético na biblioteca depois de conhecer a simpática Anja (Okay Kaya) e, com este novo vínculo, a ter novas experiências.

 

A partir daí, temos um longa-metragem muito delicado e que trabalha com interessantes metáforas fantasiosas. Toda a trama, num primeiro momento, causa grande estranhamento: os ataques epiléticos aparentemente conectados, as revoadas de pássaros batendo nas janelas, as cobras andando pelo corpo de Thelma. No entanto, logo vemos que tudo serve para um sentido -- alguns deles, como as cobras, mais óbvios, e outros, como a epilepsia, mais sombrios.

Essas metáforas poderiam ser um desastre nas mãos de roteiristas ou diretores fracos. Mas não é o que acontece aqui. Thelma ganha um direção firme de Joachim Trier -- o mesmo do interessante Mais Forte Que Bombas -- que ajuda a dar o tom na película. No final, tudo trabalha para criar uma história metafórica sobre a libertação de uma menina religiosa em um mundo cheio de tentações e provações individuais. Sexo, drogas, álcool, desobediência. Tudo está ali na trama.

 

Outro grande acerto, que faz com que o filme ganhe potência, é atuação de Eili Harboe, que já chamou a atenção em A Onda. Aqui ela consegue fazer um tipo contido, mas que brilha os olhos quando há a oportunidade de criar novas experiências. Ela acerta em cheio e, nos momentos certos, causa emoção. Vale destacar também o ótimo roteiro de Trier e Eskil Vogt (do estranho Blind), que ajuda a ampliar algumas discussões do processo individual de libertação para a discussão ampla de feminilidade.

 

O filme só perde alguns pontinhos por algumas passagens que são explicadas de maneira bem rasa. No final, por exemplo, há uma cena envolvendo Thelma e sua mãe que não há uma grande explicação e beira o absurdo -- mesmo com todo o clima fantasioso que é criado pela produção. Há, também, alguns passagens sobrando, que poderiam reduzir o filme em uns 15 minutos, deixando-o menos inchado e um pouco mais ágil para o público em geral.

 

No final, o sentimento é de que Thelma é um belo filme sobre o processo interior de uma menina que está em busca de libertação -- algo, curiosamente, parecido com Mãe! em alguns aspectos. Vale o ingresso. Afinal, não é um daqueles filmes esquecíveis que somem da mente depois de uns momentos. É um filme que fica martelando -- seja pelos seus significados narrativos ou pelas fortes e difíceis metáforas incrustadas em cada cena. Como disse, não sei se vai para o Oscar. Mas merecia.
 

ÓTIMO

 

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