Crítica: ‘Todo o Dinheiro do Mundo’ é tenso, mas roteiro prejudica resultado

Um garoto caminha solitário por ruas italianas. O barulho do sapato na calçada de pedra e as conversas com prostitutas dão o tom da noite. Tudo vai bem pra Paul, o tal do rapaz, até que um carro freia bruscamente ao seu lado e, em instantes, o sequestra. A partir daí, se dá início à uma caçada: de um lado, a mãe e um ex-agente do FBI tentam descobrir onde está o menino; do outro, o avô se recusa a dar o dinheiro para os sequestradores para ter o neto em segurança.

 

Esta premissa poderia servir para qualquer filme de suspense estrelado por Liam Neeson ou por outro astro dos filmes de ação. No entanto, o nível desta produção é elevado por dois elementos. O primeiro é a complicação por trás dessa história acima: o tal do Paul (Charlie Plummer) é neto de J. P. Getty (Christopher Plummer), um magnata do petróleo e homem mais rico do mundo nos anos 1970. E é ele que, estranhamente, se recusa a ajudar o seu próprio neto.

 

Além disso, Todo o Dinheiro do Mundo tem o selo de qualidade da direção de Ridley Scott, um dos diretores mais inventivos dos anos 1980, mas que tem perdido a mão recentemente com bombas como Êxodo. Ainda assim, há de se considerar seu currículo impressionante com filmes da estirpe de Alien e Blade Runner. Infelizmente, Todo o Dinheiro do Mundo não entra nesta última lista, tendo um resultado mediano e pouco expressivo em sua carreira.

 

O filme começa bem. A cena, descrita no começo deste texto, mostra a tensão que irá acompanhar o espectador ao longo de toda a trama -- e que se compara com sequências de tirar o fôlego vistas em O Gângster e em Falcão Negro em Perigo, por exemplo. Todo o Dinheiro do Mundo também tem um bom design de produção, inserindo o espectador direto na década de 1970, e uma fotografia interessante que chega à remeter á clássicos italianos, como A Doce Vida.

É preciso, também, tirar o chapéu para a habilidade de Scott e da produção. Como já foi amplamente divulgado, o ator Kevin Spacey foi substituído às pressas, com o filme filmado e editado, após as acusações de abuso sexual. Na tela, é impossível ver pistas dessa tal substituição -- a não ser pelo cansaço dos atores, que iremos falar daqui a pouco aqui no texto. É, sem dúvidas, um trabalho impressionante de toda a produção e que merece ser ressaltado.

 

No entanto, este bom clima de tensão e os bons aspectos técnicos logo são substituídos por um incômodo com o roteiro. Com mais de duas horas de duração, a trama escrita por David Scarpa (de O Dia em Que a Terra Parou; pois é) tem muitas pontas soltas, como o sumiço do restante da família, situações que não se resolvem e uma história pendular, que fica dando voltas e voltas em cima de uma mesma situação sem sair do lugar. Gera cansaço imediato.

 

O que segura os dois primeiras atos do filme, então, são dois nomes: Christopher Plummer (Toda Forma de Amor) e Michelle Williams (Sete Dias com Marilyn). Ela aparenta um claro cansaço em cena, já que precisou regravar muitas sequências enquanto já estava envolvida em outro projeto. Ainda assim, porém, seu desespero é bem regulado e ela internaliza muitos sentimentos. Sem dúvidas, ela merecia uma indicação ao Oscar deste ano no lugar de Meryl Streep.

 

Já Plummer é o dono do filme com um J.P. Getty que dá nervoso. Ele convence no início, mostrando uma justificativa plausível para não pagar o resgate. Entretanto, ao passar do tempo, ele vai mostrando outras camadas. Se não fosse por Sam Rockwell, ele merecia o Oscar. Só Mark Wahlberg (de Transformers) atrapalha o elenco, com uma atuação robótica que não é nem sombra do que foi visto em O Grande Herói. Ao tirar Spacey, Scott devia ter aproveitado para limar Wahlberg.

 

E assim o filme vai se sustentando, trôpego, em cima de uma boa dupla de atores, mas com um roteiro atrapalhado e um Ridley Scott pouco inspirado, que só consegue passar tensão para a tela. Aí, as coisas descambam de vez no ato final. Apesar de aumentar o nervoso da audiência, o roteiro aposta em soluções claramente ficcionais e sem proporção com toda a realidade mostrada até ali. A sincronicidade de dois acontecimentos dão vergonha. Tira a audiência do filme.

 

Além disso, o ato final é muito calcado em cima de Wahlberg. Neste momento, ele precisa mostrar certa explosão em cena para dar vivacidade à história. Mas não consegue. Foi, sem dúvidas, uma escolha errada de ator. Idris Elba, Liam Neeson, Ryan Gosling, Matt Damon, Kevin Costner. Qualquer ator se sairia melhor nesse papel e poderia segurar um pouco mais este final confuso e que mistura, em demasia, a ficção com a realidade. Faltou um maior comprometimento do roteiro.

 

Todo o Dinheiro do Mundo, então, termina numa nota amarga. Não é de todo ruim, afinal tem dois grandes atores inspirados e cenas de tensão feitas na medida certa. Ainda assim, faltou um melhor roteirista e um melhor alinhamento de qual história deveria ser contada -- se o sequestro ou a tentativa de arranjar dinheiro, que se confundem na trama. Uma pena. Não é tão ruim quanto Conselheiros do Crime, mas não é a volta triunfal do Scott de Blade Runner.

 

Agora, é esperar os novos filmes do diretor e torcer para que o cineasta volta a ficar inspirado. O cinema precisa dele.

 

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