Crítica: 'Tsé' é filme explicativo demais, mas que emociona

11/09/2019

Tsé é o apelido carinhoso de Tsecha Szpigel, uma polonesa que tem uma vida digna de um filme -- não é à toa, afinal, que virou um. Ela nasceu na Polônia, numa família carinhosa, e com um irmão pequeno. As coisas viram de cabeça pra baixo, porém, quando começa a Segunda Guerra Mundial e todos se separam. O pai vai pro trabalho forçado, a mãe vai pra um campo de concentração. E ela se perde na Polônia em guerra.

 

A partir daí, vive em zigue-zague. Sai de um lugar para o outro. Se apaixona, começa a constituir uma família. Tem o primeiro filho. E é aí que parte para o Brasil pronta para reconstruir sua vida, destruída pelo nazismo. E não é que deu certo? Tsé construiu uma linda família, da qual sentia visível orgulho. Tinha um marido carinhoso e dedicado, bons netos, bisnetos que a admiram. Tudo que alguém como ela merecia quando idosa.

 

É isso, e um pouco, que está no documentário Tsé, dirigido por Fábio Kow. Neto da biografada, ele cria um documentário híbrido de gêneros, formatos e emoções. Há cenas de arquivo familiar, há reconstruções em aquarela, há entrevistas com netos e bisnetos, principalmente. Nada que faça com o que filme seja muito original, mas há uma clara tentativa do cineasta em fugir do padrão que é feito e visto por aí aos montes no cinema.

 

Além disso, ele também divide o filme em dois momentos. Um primeiro, que toma quase dois terços de filme, em que a narrativa se detém na história pregressa de Tsé. Como ela cresceu, como escapou dos alemães, o que aconteceu com o pai, com a mãe e com o irmão. É o pior momento do filme, de longe. As coisas se arrastam, muitos depoimentos se amontoam. Há até falas que repetem o que tinha sido dito há alguns poucos minutos.

Num segundo momento, porém, o documentário ganha força. Afinal, mais do que narrar essa epopeia da biografada -- que é interessante, sim, mas não da maneira que foi contada --. o longa-metragem se propõe a entender a polonesa como avó, matriarca e ser humano. E que coisa linda! Usando a memória como ponto de partida, Kow narra uma espécie de fábula familiar. Tsé é tratada com delicadeza, com carinho, com amor.

 

É algo que transborda a tela e é impossível não lembrar, cada um na sua poltrona, dos avós, tios-avós, padrinhos, madrinhas. É uma lembrança que vem com tudo, como soco no estômago, e tira o ar. As lágrimas caem naturalmente. Tsé, assim, se torna um canalizador de emoções. É algo que esperava-se desde o primeiro minuto de filme. Não era preciso aguardar 90 minutos para que essa explosão tomasse conta da produção.

 

Enfim, Tsé é um filme instável. Seus dois primeiros atos são extensos demais, detalhados demais. Não precisava explicar tanto, se deter em tantos depoimentos de tantos familiares. Seria muito mais interessante se ele fosse mais calcado na memória afetiva. Afinal, mais do que ter vivido a História, Tsé parecia ter sido uma avó exemplar, uma esposa amorosa, uma mulher guerreira. Não era preciso contar toda a jornada.

 

Uma atitude, um sorriso, um depoimento. Tudo isso já falaria sobre toda a jornada da biografada. A memória afetiva, afinal, é algo lindo no cinema. E Tsé é exemplo disso.

 

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