Crítica: 'Uma Criança como Jake' traz importantes discussões modernas

10/06/2019

Jake (Leo James Davis) é um garoto que não se encaixa no padrão dos outros garotos de sua idade. Ao invés de bola e carrinho, o menino prefere brincar com bonecas, assistir filmes de princesas da Disney e se vestir como a Rapunzel. Aparentemente, o garoto de quatro anos não se encaixa em seu gênero. Essa questão, cada vez mais proeminente numa sociedade que passa a enxergar a questão de gênero com a fluidez necessária, é o tema que permeia toda a narrativa de Uma Criança como Jake, bom longa-metragem que chegou aos serviços de VoD na última semana, como iTunes, Google Play e NOW.

 

Ao contrário do que parece, porém, o diretor Silas Howard (da série Pose This is Us) não segue pelo caminho óbvio de discutir aspectos da transsexualidade infantil. Pelo contrário. Acertadamente, o cineasta opta por enxergar essa questão do menino Jake de maneira natural, sem grandes problematizações. O cerne do filme, na verdade, está nos pais, interpretados por Jim Parsons (o Sheldon de The Big Bang Theory) e Claire Danes (Homeland), que não conseguem compreender a importância de uma discussão aberta sobre a sexualidade de seu filho e, consequentemente, tomar decisões importantes.

 

O filme possui algumas limitações técnicas e que até justificam o seu lançamento direto em streaming e VoD. Howard, que vem do mundo das séries, não dá um aspecto de filme para cinema em Uma Criança como Jake. Os planos são fechados, há pouquíssimas explorações do ambiente e a câmera, quase documental, se concentra só nas relações entre o pai Greg, um psicólogo, e a mãe Alex, advogada. Poucos momentos o filme se arrisca a ir além, saindo do cenário escola-casa-escola. É um filme que, sem dúvidas, fica mais agradável de se assistir em casa, já que não precisa de tela grande.

 

No entanto, apesar das limitações técnicas aparentes, o filme se sai muito bem em questões interpretativas. Parsons sai do papel que o estigmatizou na TV e vai além. Acerta como um pai de família preocupado, mas que não parece ter muito jeito para lidar com algumas situações complicadas. E, de alguma maneira, serve de escada para a personagem de Danes brilhar na tela. Ela apresenta toda a dúvida, medo e insegurança que rodeia a personagem em relação ao seu filho. Ambos parecem estar bem com o gênero do garoto. Mas possuem medo de como ele vai ser tratado na rua.

 

Octavia Spencer (Ma), Ann Dowd (Hereditário) e Priyanka Chopra (Megarrromântico) completam os atores que mais aparecem em cena. Destas, Spencer se destaca como uma mulher à frente de seu tempo e que consegue enxergar a situação com clareza.

 

Além disso, há situações muito bem pensadas no roteiro do estreante Daniel Pearle. Ainda que haja alguns falhas de desenvolvimento e situações importantes pouco desenvolvidas -- como a história da gravidez --, a trama ajuda a impulsionar a reflexão e a fazer pensar sobre a situação no geral. A ideia não seguir o óbvio e mostrar a vida do garotinho é espetacular e mostra como Pearle, junto com o diretor, pensaram bem nos caminhos que poderia e deveriam seguir. Funciona, no geral, como história e reflexão.

 

O único grande problema é como o filme coloca os personagens em situações quase imutáveis. O menino, como dito, é silenciado durante quase toda a história -- e, como já ressaltado, parece ser a decisão mais acertada. O pai é o pacificador que busca resolver a situação da maneira mais racional possível. A mãe está desesperada em não saber como seu filho irá se encaixar. E Spencer é a orientadora que vê as coisas com uma clareza desconcertante. É quase um oráculo. Seria mais interessante, afinal, que esses papéis se misturassem. A realidade seria encarada de uma maneira mais crua, direta.

 

Mas, ao final, Uma Criança como Jake traz um sentimento interessante. Mais do que retratar o drama de uma criança desconfortável com seu gênero ou coisas do tipo, o filme traz algo interessante à tona e apresenta uma discussão contemporânea e necessária. Afinal, o que fazer numa situação como essa? Permitir que a criança seja livre para sentir e agir da maneira que for, mas com riscos de sofrer na escola? Ou, então, reprimi-la até que haja idade o suficiente para enfrentar os desafios da vida fora de casa? São questões difíceis, complexas, sem respostas certas ou erradas. O fato é que isto é algo que precisa ser discutido, pensado. Não adianta mais esconder isso.

 

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