Crítica: 'Uma Noite Não é Nada' é um dos piores filmes do ano

23/08/2019

O professor Agostinho (Paulo Betti) está desiludido com a vida. Não tem mais amor por sua esposa (Cláudia Melo) e entrou numa rotina desconfortável. A sua vida ganha um agito, porém, quando ele começa a se envolver romanticamente com Márcia (Luiza Braga), uma de suas alunos do curso de supletivo. A grande barreira entre o mestre e a aprendiz está no fato de que ela, além de ser viciada em drogas, é portadora de HIV. Como vencer essa questão? Como fazer com que esse pretenso casal dê certo?

 

São essas premissas que movem o péssimo Uma Noite Não é Nada, do cineasta franco-brasileiro Alain Fresnot. São tantos e tão explícitos os problemas que é difícil elenca-los ordenadamente. Por isso, vamos nos ater no principal: a romantização de temas sérios.

 

Primeiro, o da relação abusiva entre professor e aluna. Por mais que ela seja maior de idade e saiba o que está fazendo da vida, a personagem Márcia continua sendo uma presa fácil para Agostinho. Ela vive uma relação de subordinação e relação entre mestre e aprendiz, por mais que não tenha uma proibição clara, deve ser sempre tratada com cautela -- afinal, pode ter muita coisa por trás. Fresnot, porém, logo de cara descarta isso e faz com que Márcia e professor viva um romance dos sonhos. Sem problematizar.

 

Depois, quando parece que as coisas não podem piorar, o cineasta e argumentista vai lá e piora ainda mais a situação: começa a romantizar estupro. Em determinado momento do longa, o personagem de Paulo Betti se aproveita da aluna enquanto ela está desacordada de tão drogada. É uma cena repugnante. E depois, como Fresnot resolve isso no roteiro? Simples: a personagem de Márcia dá uma risada, pergunta se ele a encontrou no quarto e acabou. Fim da história. Depois, volta todo o romance pra tela.

Por fim, entrando num terreno pantanoso, desrespeitoso e quase criminoso, Uma Noite Não é Nada romantiza.... a AIDS. Sim, caro leitor. Alain Fresnot, dos divertidos Família Vende Tudo Ed Mort, joga o bom-senso no lixo e reproduz uma cena bizarra, uma das mais abjetas do cinema nacional recente, na qual o personagem de Paulo Betti lida com a doença como se estivesse lidando com ma vacina. Eu, que não tenho a doença e nem convivo com alguém que tenha, fiquei desconfortável. Imagina quem é soropositivo?

 

Paulo Betti (Chatô), em determinado momento do longa, claramente começa a ficar constrangido com o rumo de alguns acontecimentos -- por mais que mantenha a postura profissional de se ater ao papel. Quem, em determinado momento, não consegue mais levar a interpretação é a estreante Luiza Braga.  Há cenas de sexo explícito com a atriz, totalmente gratuitas, e que só servem para impulsionar ainda mais a trama cheia de erros, falhas, inflexões. Fica evidente o total desconforto da atriz.

 

Há coisas boas aqui e acolá (o cachorro, Claudia Melo e, principalmente, a fotografia). Mas nada é o bastante para barrar a vergonha que atinge o público em cheio. Além disso tudo, tramas dispersas e cenas sem conexão alguma com o que se desenrola em cena vão se amontando na telona e puxando o espectador para um poço sem fim de constrangimento. Filme péssimo que lidera a corrida para pior de 2019. E aqui, caro leitor, tomo sua licença para fazer algo que nunca fiz no Esquina: não vá ver isso aqui.

 

É tão humilhante, principalmente para mulheres e soropositivos, que não dá para dizer que você vá conferir com os próprios olhos. É algo que não merece sua atenção, seu tempo, seu dinheiro. Merece apenas o desprezo de ser um filme parado no tempo.

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