Crítica: 'Velvet Buzzsaw', da Netflix, é boa ideia, mas mal executada

04/02/2019

Um pintor desconhecido e sem prestígio morre na solidão de seu escuro apartamento. Coincidentemente, a vizinha Josephina (Zawe Ashton) trabalha para a prestigiosa galeria de Rhodora (Rene Russo), uma espécie de magnata do mundo das artes nos EUA. Aí, magicamente, a ligação se faz: as obras do pintor morto acabam caindo nas mãos da dona da galeria, que inicia um ciclo de cobiça e desejo de prestígio ao redor dessas pinturas. No final, além delas, o crítico Morf (Jake Gyllenhaal), a consultora Gretchen (Toni Collette) e o galerista Jon Dondon (Tom Sturridge) acabam envolvidos. Esta é a trama geral de Velvet Buzzsaw, novo lançamento original da Netflix. 

 

A direção fica a cargo de Dan Gilroy, que surpreendeu em sua estreia com O Abutre e, depois, decepcionou com Roman J. Israel. Aqui, não dá para dizer que o filme é mediano como seu último lançamento, nem estrondoso como o seu primeiro. A ideia, centrada na fantasia de que a arte consome os que a transformam em algo unicamente monetário, é muito boa, ainda que pouco original -- já foi trabalhada de maneira genial no recente The Square, que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O diferencial está nesse aspecto que mistura a fantasia e o horror, dando toques à tal crítica social.

 

No entanto, é esse próprio diferencial que acaba sendo o "calcanhar de Aquiles" da produção. A crítica que Gilroy anseia em contar fica evidente demais, pouco sensível, e parece que há pouco orçamento para deixar as cenas da "arte consumindo as pessoas" mais forte e real. Além disso, um possível suspense que o diretor e roteirista poderia ter criador para deixar o desenrolar da história mais atraente cai por água abaixo logo no início. Os personagens, desprezíveis propositadamente, também não criam vínculo com o público. A única diversão, aqui, é ver a forma que os personagens vão morrendo.

Até mesmo o elenco não consegue entregar grandes interpretações -- ao passo que O Abutre trouxe Gyllenhaal irreconhecível e Roman J. Israel trouxe Denzel Washington com uma das melhores atuações da carreira. Ashton (Wanderlust) é uma protagonista fraca e não consegue corresponder à história. Russo está bem, mas parece repetir a mesma personagem de O Abutre. Collette (Hereditário) e Sturridge (Mary Shelley), enquanto isso, não possuem material o suficiente para impressionar. Gyllenhaal está bem, mas é apenas um coadjuvante alçado à força ao protagonismo. Uma pena.

 

A grande alma do filme, assim, está na crítica ao mundo da arte que Gilroy consegue tecer. Uma cena envolvendo Collette e uma obra de arte esférica possui uma conclusão estonteante e que eleva o significado de sua história. A própria brincadeira da arte engolindo as pessoas possui um significado metafórico forte e, infelizmente, real. Mas uma boa ideia, infelizmente, não é o bastante para levar um filme pra frente. Exige-se boa história, uma trama amarrada, personagens complexos. Aqui quase não há isso. Há apenas desperdício de ideia, de trama e personagens. Poderia ter ido muito, muito além.

 

Assim, Velvet Buzzsaw é um filme com uma boa ideia, com um final interessante, e com alguns acontecimentos ao longo da narrativa que ajudam a temperar o clima geral do longa-metragem. Mas, ainda assim, falta muito para ser algo realmente aceitável. Falta elenco, apesar das participações estrelares; falta trama e algo que prenda o espectador, já que não há ligação entre público, personagens e história; falta melhor desenvolvimento geral. Uma pena. Quer um bom filme que critique o mercado da arte? Vá ver The Square. Esse é uma boa diversão -- e só para alguns. De resto, ainda falta.

 

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