Crítica: 'Vingança a Sangue Frio' é divertido e inusitado filme de ação

12/02/2019

Liam Neeson é "pau para toda obra", como dizem por aí. Fez dublagens em algumas divertidas animações (Aventura LEGOO Que Será de Nozes), participou de comédia de besteirol (Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola, Ted 2), dramas intensos (A Lista de Schindler, Mark Felt, Silêncio) e, é claro, de filmes de ação insanos, como a trilogia Busca ImplacávelO Passageiro Sem Escalas. Parece que ele não pensa duas vezes antes de aceitar um papel que faça as pessoas se divertirem, refletirem e embarcarem em uma boa história. Vingança a Sangue Frio, estreia desta quinta, 14, é mais um caso.

 

O longa-metragem, dirigido pelo sueco Hans Petter Moland, não é original: é remake de um filme de 2014, chamado O Cidadão do Ano e curiosamente dirigido pelo próprio Moland. Ou seja: é uma adaptação norte-americana de uma produção sueca que continua sob cuidados da mesma equipe criativa. E isso é muito saudável para o filme. Ainda que a base da trama seja a mesma, Moland conseguiu inserir alguns ingredientes divertidos, enquanto outras bobagens foram suavizadas. O humor negro, aqui, está mais presente e a trama, curiosamente, está mais amarrada. Raro caso de um ótimo remake.

 

A história é bem parecida: Nels Coxman (Neeson) é um motorista que tem a responsabilidade de limpar as estradas de Denver, nos Estados Unidos, da neve que se acumula. Por conta da sua prestação de serviços, é escolhido como o cidadão do ano e tido como um pai e marido exemplar. No entanto, ele se revolta quando o único filho (Micheál Richardson) é morto a mando de um traficante da região, o estranho Viking (Tom Bateman), e começa a buscar vingança a qualquer custo, matando todas as pessoas que estiveram diretamente envolvidas no sequestro e homicídio do rapaz.

Quem entra em contato com o filme só pela sinopse acha, num primeiro instante, que se trata de mais um Busca Implacável, no qual Neeson faz de tudo para vingar algo de ruim que é feito a algum filho seu. Mas não. Curiosamente, Vingança a Sangue Frio remete mais às comédias Fargo Numa Fria, que usam o inverno brutal e uma série de acontecimentos banais como gancho para uma situação maior e mais complicada. É um tipo de história inesperada para quem espera apenas tiro, porrada e bomba, como já é de costume na maioria das produções que envolvem Neeson, filho sumidos e ação.

 

Porém, quando a porradaria começa a pipocar na tela, não há quem bote defeitos. É violenta, com sangue espirrando para todos os lados e com a emoção na dose certa -- e apesar de Moland evitar closes exagerados nas cenas de luta ou de violência, serve bem aos que procuram esse tipo de diversão. O grande destaque da história, porém, é o inesperado humor. É bem dosado, poucas vezes falha em sua tentativa de fazer rir, e tem um ar non-sense que inova no gênero. Fazia tempo que o cinema de ação não produzia uma boa mescla com a comédia. Deve agradar os mais velhos, que buscam uma história mais contida, nem tão focada na violência ou na corrida contra o relógio.

 

É quase um filme de ação cult, por mais estranha e inusitada seja essa comparação.

 

De resto, as coisas funcionam em partes. Neeson está bem e encaixa no papel, como era de se esperar. O mesmo vale para Tom Bateman (Assassinato no Expresso do Oriente), que faz um vilão óbvio, mas divertido. No entanto, o resto do elenco não consegue entregar grandes atuações. Laura Dern (O Conto) é totalmente subaproveitada, com uma ou duas cenas interessantes. Em determinado momento, Emmy Rossum (O Dia Depois de Amanhã) parece que vai ganhar a atenção do filme, mas acaba passando desapercebida. Quem acaba segurando as pontas daí é o garotinho Nicholas Holmes.

 

Vingança a Sangue Frio é um filme inesperado. Tem boas piadas, uma história divertida e cenas de ação que animam e divertem. Não espere uma história profunda, cheia de bons momentos e reflexões, claro. Isso fica para os dramas de Neeson. Nem vá desejando por um clássico '"tiro, porrada e bomba", como o ator também faz. Aqui, a alma é o entretenimento despretensioso e bem feito. Quem embarcar no absurdo das situações, sem dúvidas, vai sair leve do cinema, com uma história para contar por aí.

 

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