'É um filme-manifesto', resume atriz de 'Lembro Mais Dos Corvos'

27/02/2019

Sem dúvidas, o longa Lembro Mais Dos Corvos já é uma das surpresas de 2018. Dirigido por Gustavo Vinagre e protagonizado por Júlia Katherine, o filme acerta em cheio ao colocar uma mulher transsexual falando direto, sem parar, por 80 minutos e, assim, trazendo alguns bons questionamentos e reflexões para o público em geral. Sem resquícios do marasmo que monólogos trazem, o filme ainda guarda surpresas maiores para os bastidores da produção, repletos de experimentalismos e técnicas ousadas.

 

"Queríamos acompanhar o fluxo de insônia da Júlia, ao longo de uma noite inteira", explica Gustavo Vinagre ao Esquina. "A gravação começou às 20h e terminou só às 8h do dia seguinte. Eu estava exausta, não aguentava mais. É muito complicado. E eu bebi, realmente, a noite inteira. De manhã, eu cheguei em casa tropeçando", conta a atriz e protagonista, que trabalha num difícil e interessante limite de ficção e documentário.

 

Abaixo, confira o bate-papo completo do Esquina com Gustavo Vinagre e Júlia Katherine, de Lembro Mais Dos Corvos:

 

Esquina da Cultura: De onde veio a ideia do filme? Como foi a relação de vocês antes pra chegar no resultado que vimos na tela?

 

Vinagre: A gente se conheceu há 10 anos, quando ela era secretária no site Mix Brasil e eu era estagiário. Só que depois disso nossos caminhos acabaram se afastando, com ela indo pro Japão e eu me aprofundando no cinema. Foi só há uns quatro anos que a gente se reencontrou. Chamei ela para atuar em alguns curtas que dirigi, o resultado foi bom e, neste momento, vi que ela tinha um magnetismo muito forte ao contar histórias. Eu, que já tinha ouvido as mesmas coisas várias vezes, prestava atenção. Percebi que precisava só dela e de uma câmera pra fazer um filme. Propus isso pra ela, que aceitou, e passamos a trabalhar em cima do roteiro. Queria a sensação de que o filme fosse uma conversa, como se o espectador estivesse sentado na casa dela conversando. É a chance de ouvir uma mulher trans falando, no cinema, durante 80 minutos sem parar.

 

Esquina: E o filme faz com que o espectador sinta que está acompanhando uma noite da Júlia, não é?

 

Vinagre: Sim, também tem isso. Meio que acompanhamos o fluxo de insônia da personagem, noite adentro. Além disso, tem a sensação de continuidade, de conversa mesmo, com ela se cansando e se embriagando aos poucos. No roteiro, a coisa mais rígida é a ordem das histórias. Por exemplo: eu queria começar contando como e por quem ela foi abusada, durante a infância, pra tirar isso da frente e não ser usado como uma revelação barata no final. Esse acontecimento, claro, é parte essencial da vida dela. Mas está longe de ser o mais importante. É uma das coisas que a define, não a única.

Esquina: E vocês gravaram tudo em uma única noite mesmo?

 

Vinagre: Sim. Foi meio que um experimento de produção cinematográfica. A gente não tinha dinheiro pra fazer filme, não tinha incentivo fiscal. Assim, precisamos pensar na forma mais econômica de fazer tudo, fazendo com que fosse uma gravação mais rápida. Até pensamos em fazer um curta, mas ela tem histórias de vida pra vários longas. Não seria justo com o material que tínhamos em mãos. A Julia [Katherine] é uma pessoa incrível e tem história boa pra contar em várias outras oportunidades, sem dúvidas.

 

Júlia: O Gustavo queria que fosse um filme cru, extremamente real. Então a gente foi filmando como se eu estivesse conversando enquanto fazia algumas coisas. E isso é muito interessante pro ator, pro realizador. É algo que não é comum. Mas, ao mesmo tempo, era um processo muito forte pra mim, muito difícil. Foi um dos grandes desafios da minha carreira, já que eu precisava ficar muito atenta, aproveitar as situações e o tempo ao máximo. Afinal, não haveriam outros takes. No final, fiquei bem desgastada, já que filmamos a noite toda. Entramos no set às 20h e saímos às 8h. É muito complicado. E eu bebi, realmente, a noite inteira. De manhã, eu cheguei em casa tropeçando.

 

 

Esquina: Aquele cenário não era seu apartamento, de fato? Parece muito que é. 

 

Vinagre: É o meu apartamento (risos). 

 

Júlia: Foi uma das coisas que a gente pensou. A gente criou algumas coisas....

 

Vinagre: Ela estava um pouco insegura de expôr sua história. Até pensamos em dar um outro nome pra personagem, que não fosse o próprio. Ela estava muito preocupada em como a família ia receber algumas das histórias. Mas, no dia da filmagem, ela recebeu o aviso de que o nome Júlia Katherine tinha sido aprovado. Isso deu uma coragem e a gente decidiu usar o nome dela. Mas o filme joga com algumas pequenas ficções, que foi a maneira que a gente encontrou da Júlia se sentir protegida. Nesse final, claro, ela estava cansada, mas é uma conclusão com algumas coisas roteirizadas, como a coisa ir até a janela, a caixinha de música, a passarinha que foi comprada para o filme e que depois ficou comigo. A própria coisa do quimono foi para trazer a questão da exotificação da mulher oriental, da mulher trans. São vários 'jogos' que voltam no final, quando ela diz ter se sentido objetificada. São discussões que a gente queria trazer para dentro do filme, que parecem espontâneas, mas que foram todas pensadas e feitas de comum acordo.

Esquina: É difícil trabalhar nesse limite entre a ficção e o documentário o tempo todo?

 

Júlia: Eu acho bem difícil. Algumas histórias que eu contava envolviam outras pessoas e eu tinha medo de expô-las. Então me senti mais confortável quando a gente decidiu ficcionalizar algumas coisas para que eu pudesse contar histórias sem ter essa preocupação de não saber até que ponto ir. E deu certo. Tem um momento, por exemplo, que estou atuando completamente, que não sou eu. Mas, mesmo assim, uma senhora veio falar comigo em um festival, chorando, dizendo que já passou pro aquilo. Eu fiquei muito feliz, muito orgulhosa. Vi que sou uma boa atriz (risos). Foi bem interessante essa brincadeira entre ficção e documentário.

 

Esquina: Júlia, como foi o processo de elaboração do seu curta, 'Tea for Two'? Durante o 'Lembro Mais Dos Corvos', você fala sobre uma coisa e quando assistimos ao curta, no final da sessão, é outra completamente diferente. 

 

Júlia: Eu tenho predileção por comédias românticas. Eu sempre quis fazer um filme romântico com essa situação nova de colocar um homem cis se envolvendo com uma mulher trans. Sempre que a mulher trans é retratada no cinema, há um contexto muito duro, muito triste, muito dramático. Aquele filme A Mulher Fantástica, por exemplo, é assim. Tenho problemas com o filme por isso. É tudo em torno do sofrimento da mulher trans. Por isso queria fazer uma comédia romântica. Acabei me inscrevendo num edital para as chamadas minorias, aproveitando esse roteiro num curta. Ainda achava que era uma comédia romântica, apesar do Gustavo falar que não era. Eu selecionei os atores e, durante o processo, tive um envolvimento emocional muito forte com eles. Estava muito envolvida e via esse ator como o único homem cis na Terra que podia interpretar o personagem. Então, acabei transformando a personagem numa mulher. Chamei a Gilda Nomacce, que topou e gravamos tudo em uma única semana. Tivemos um set bem familiar. Mas o filme acabou virando um melodrama, muito pelo estado de espírito da época e também pelo fato de não ser uma comédia desde o começo (risos). Mas eu ainda vou fazer minha comédia romântica! É preciso de um filme com essa temática pra sair do sofrimento igual, de sempre. 

 

Esquina: Não existem muitos filmes que vão além disso, não é mesmo? Tudo acaba caindo nesse estereótipo. 

 

Júlia: Eu quero contar uma história de relações humanas. Eu não queria fazer discursos explicativos, sobre o que é transsexualidade. Quero falar de preconceito, sem ser uma questão a ser abordada. Acho que consegui fazer o que queria: contar as histórias dessas mulheres, mas sem deixar de apontar que vivemos numa sociedade machista.

 

Vinagre: Só agora o cinema gay consegue se livrar das narrativas de pessoas saindo do armário. Para a transsexualidade, a mesma coisa. Há muita dramaticidade com a transição. Mas o que é a transição? Se a pessoa nasceu mulher na cabeça dela, ela é mulher. Enfim: durante anos, foi um cinema que só falava sobre isso com a cena clássica da trans confundida com uma drag. Nosso filme tem a preocupação de naturalizar uma pessoa, em sua casa, que seja trans, e trazendo para esse ambiente de intimidade. Queremos que as pessoas escutem uma pessoa trans.

 

Júlia: E é engraçado que o filme está tendo uma receptividade muito boa. Eu converso com as pessoas e elas são muito generosas. Hoje, o Lembro Mais dos Corvos é mais do que um filme sobre uma mulher trans. Representa, neste ano, um ato político. Com ele, mostramos que estamos aqui, que não vamos embora. É dizer pra [Ministra] Damares que estamos aqui e que não vamos embora. É um manifesto contra essa cultura que o governo tem de apoiar violência anti-LGBT. O Lembro Mais dos Corvos é um filme manifesto.

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Posts Recentes
Please reload

Arquivo
Please reload

Publicidade