'É um grito de liberdade', dizem diretores de 'Bixa Travesty'

26/11/2019

Primeiramente, o longa-metragem Bixa Travesty parece um documentário sobre a artista Linn da Quebrada. Afinal, há um foco claro em sua vida, em sua rotina, em sua arte. No entanto, conforme o filme avança, vai ficando óbvio como os diretores Claudia Priscilla e Kiko Goifman foram muito além. A partir da história e do corpo político de Linn, os cineastas falou sobre sexualidade de maneira firme, forte e aprofundada.

 

Afinal, em Bixa Travesty, se fala sobre a quebra dos "costumes", a reinvenção do gênero, a sexualidade e o corpo como ferramentas políticas. Nada mais de polarizações, binarismos. Goifman, Claudia e Linn deixam claro, por meio de depoimentos, excertos de shows e imagens de arquivo, como o mundo mudou. A sexualidade é outra, o lugar de fala é outro. Mais do que entender isso tudo, é preciso respeitar e mostrar aos outros.

 

"Bixa Travesty é um grito de liberdade contra tudo que oprime, contra tudo que tenta reduzir os entendimentos dos corpos à ideia heterocisnormativa, contra tudo que violenta os direitos humanos e contra todos que querem calar as diversidades", disseram os diretores em entrevista ao Esquina, por e-mail. A dupla está fazendo o lançamento do filme após passagem por festivais ao redor do mundo, incluindo Brasília.

 

Afinal, com lançamento comercial, em 21 de novembro, o longa ganhou ainda mais significados. O Brasil mudou política, social e sexualmente nos últimos tempos.

 

Para saber mais sobre os desafios de Bixa Travesty, confira abaixo a conversa completa do Esquina com os diretores Claudia (A Destruição de Bernardet) e Kiko (FilmeFobia). Como a entrevista foi realizada por e-mail, durante o período de divulgação do filme, não há respostas só de Kiko ou se Claudia. Os dois cineastas responderam, em uníssono. E, por mais que pareça confuso, há certa poesia nisso. Assim como o filme.

Esquina da Cultura: De onde veio a ideia de fazer 'Bixa Travesty'? Como foi a aproximação com Linn da Quebrada?

 

Claudia Priscilla e Kiko Goifman: Conhecemos a Linn em 2015, durante uma pesquisa sobre coletivos de arte que se apropriavam das ruas para discutir gênero através de performances ousadas e provocativas. Na época, Linn fazia parte do Coletive Friccional. A partir daí começamos acompanhar sua vida através das redes sociais e encontros ocasionais. A decisão de fazer um filme veio quando nos deparamos com a “cantora” Linn da Quebrada, num show no centro de São Paulo. Percebemos que estávamos diante de uma artista contemporânea, que trata de assuntos atuais de uma forma original. Uma artista que usa o próprio corpo como arte. Decidimos fazer um filme pautado na ideia de liberdade de comportamento e do corpo.

 

Esquina: Apesar do filme ter Linn como principal personagem, ele vai além de um documentário sobre a vida dela. Como foi o processo de roteiro para conseguir ir além e provocar outros debates/reflexões?

 

Claudia e Kiko: Bixa Travesty é uma criação coletiva, um trabalho horizontal de trocas de ideias e conceitos. A ideia de convidarmos a Linn para estar ativa criativamente no filme vem da percepção de sua arte que se nutre da sua história de vida, da sua subjetividade. Importante que ela também pudesse decidir como seria “retratada” numa narrativa fílmica. Escrevemos um roteiro que atravessa as bordas do cinema documental, utilizando elementos ficcionais para o filme. Além dos shows, o filme traz “a intimidade” da personagem. Além disso, criamos uma dinâmica que estimulava uma produção contínua de ideias ao longo das filmagens. Muitas cenas que foram feitas neste impulso criativo sobreviveram na montagem final. São olhares de pessoas diferentes que compõe esse filme.

 

Esquina: 'Bixa Travesty' possui um tom de resistência e de liberdade sexual muito forte. Ao mesmo tempo, estamos vivendo momentos sombrios no Brasil neste sentido. Qual é a importância de falar sobre isso agora? É também um ato político?

 

Claudia e Kiko: Existe uma onda conversadora, moralista. São evidentes alguns desejos de retrocessos de conquistas de direitos. Falar desse tema hoje é urgente, estamos diante da luta por direitos de pessoas que sofrem violências simbólicas e físicas diariamente. O Brasil é o país que mais mata travestis e pessoas trans no mundo. Bixa Travesty é um filme sobre esses corpos políticos. Bixa Travesty é um grito de liberdade contra tudo que oprime, contra tudo que tenta reduzir os entendimentos dos corpos à ideia heterocisnormativa, contra tudo que violenta os direitos humanos e contra todos que querem calar as diversidades. 

 

Esquina: Qual o maior desafio no processo de 'Bixa Travesty'?

 

Claudia e Kiko: O maior desafio foi lançar nos cinemas aqui no Brasil. No Festival de Brasília, recebemos o prêmio de melhor filme de público concedido pela Petrobrás para a distribuição do filme e, com a troca de governo o prêmio foi cancelado. As negociações seguem agora juridicamente. Diante disso, começamos a tentar outros apoios para o lançamento. Isso demorou e o filme entrou em outros países antes de chegar aqui, como Argentina, França e Reino Unido. Agora finalmente estaremos em cartaz e esperamos que esse filme seja um instrumento político simbólico para a garantia da liberdade de expressão nesse país. 

 

Esquina: O filme já foi muito bem recebido em festivais. Qual a expectativa agora com a recepção do público?

 

Claudia e Kiko: O filme teve estreia no Festival de Berlim onde recebeu o prêmio Teddy de melhor longa documentário. Depois dessa experiência foi exibido em mais de cem festivais e contamos com mais de vinte prêmios. Em todas as sessões que pudemos acompanhar a recepção foi bastante calorosa gerando debates instigantes. O filme trata de corpos travestis e queremos que esses corpos ocupem as salas de cinema, mas acreditamos que o nosso publico é amplo, quando falamos sobre corpos trans não estamos mais falando para um grupo específico, para um gueto, esse é um assunto que deve ser debatido por toda a sociedade. São esses corpos trans, não binários, travestis, que, ao ocuparem espaços, colocam em dúvida a “naturalização” dos corpos normativos. A partir do momento que nos deparamos com esses corpos desobedientes, podemos ver o mundo além das caixas do binarismo que nos foram impostas.

 

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