Em 'Aspirantes', o Brasil dos campos de futebol amadores

04/12/2019

 

Júnior (Ariclenes Barroso) é um jovem que tem o sonho de ser um jogador de futebol profissional. No entanto, sua jornada não é fácil. A namorada está grávida, a família cobra resultados e o amigo Bento (Sérgio Malheiros), estrela do time, está mais à frente na profissão. Assim, aos poucos, o protagonista vai ficando mais tenso e desmotivado.

 

Esta é a trama do bom Aspirantes, longa-metragem que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 28, e que traz o futebol de maneira interessante na tela. Afinal, mais do que falar sobre o esporte, o cineasta Ives Rosenfeld, estreante em longas, Aspirantes foca no drama humano desses rapaz que estão por aí, sonhando e buscando oportunidades.

 

Júnior, afinal, é o retrato de uma grande parcela do Brasil que tenta fazer dinheiro com a bola, nos gramados. Mas, infelizmente, nem todos são descobertos ou revelados.

E para isso, Ives montou um filme de baixíssimo orçamento, mas que surpreende. As partidas são realistas -- ao contrário do recente Eu Sou Brasileiro, por exemplo -- e é criado um vínculo entre o público e os personagens. Afinal, os dramas são reais, palpáveis, naturais. Dá para sentir o que o protagonista sente através das telonas.

 

Assim, é de se respirar aliviado que Aspirantes tenha vencido o tempo e, sete anos após as filmagens, conseguiu chegar às telas -- e premiado na Mostra no meio do caminho. 

 

Abaixo, confira a entrevista do Esquina com Ives, Sérgio e Ariclenes sobre Aspirantes.

Esquina da Cultura: De onde veio a ideia de 'Aspirantes', Ives? 

 

Ives Rosenfeld: Sou um apaixonado por futebol desde criança. E queria contar uma história de futebol nos cinemas. Queria filmar partidas, filmar esse universo. O projeto surge desse desejo. O futebol tem importância fundamental na cultura brasileira.

 

Esquina da Cultura: Como vocês entraram pro elenco do filme, Sérgio e Ari?

 

Sérgio Malheiros: Eu entrei com teste. Já jogava futebol, apesar de não acompanhar ativamente. Não sei nem que é o técnico do meu time, o Botafogo (risos). Mas eu adoro jogar bola. E fiquei entusiasmado quando vi que o Ives criou um time de jogadores, de verdade, dentro do filme. Usamos as histórias dos jogadores pra compôr personagem. 

 

Ariclenes Barroso: Fui indicado para o meu papel depois de Tatuagem. Aí fiz testes, conheci o personagem, conheci o Ives. Mas tudo ali no set foi amor à primeira vista.

 

Esquina: E como é filmar futebol? Há uma produção muito escassa no Brasil sobre isso.

 

Ives: Tem muito documentário. Mas, de fato, são menos títulos em ficção. Fizemos uma grande pesquisa pra saber o que já tinha sido filmado em futebol. E buscamos entender algumas coisas. Como, por exemplo, o motivo das partidas não serem naturais nos filmes, nas novelas. Isso ajudou a nortear a produção sobre como filmaríamos tudo. É mentira que brasileiro não sabe filmar futebol. Vemos jogos duas vezes por semana e tá tudo certo. Por isso, a gente queria emular as partidas de futebol como elas são de fato.

 

Nós pegávamos dois times para jogar, com jogadores de verdade, e colocávamos pra jogar. Três câmeras fora das linhas do campo e filmava. Era um desafio e tanto.

 

SérgioE era engraçado. O Ives manipulava os resultados (risos). Eles tiravam um ou dois jogadores do outro time, do time contrário dos protagonistas! Era pra gente ganhar.

 

Ives: Eu virava e falava: 'juiz, expulsa o jogador do outro time! Agora expulsa mais dois'!. Aspirantes não está interessado na partida de futebol. Está interessado nas pessoas. Por isso, ficávamos com as câmeras neles. Nem via a bola. Via só a expressão dos dois.

Esquina: O filme foi rodado em 2012 e chega só agora aos cinemas. O que aconteceu?

 

Ives: A gente fez a filmagem com muito apoio e parceria. O elenco e a equipe receberam bem abaixo do mercado. Trabalho há muitos anos com cinema e, por isso, consegui juntar muita gente. Criamos uma espécie de família. O grupo no WhatsApp ainda é vivo. 

 

Esquina: O Bento e o Júnior são muito trabalhados nos silêncios. Como foi isso?

 

Ives: Depois que saí da faculdade, trabalhei muito tempo como técnico de som. Por isso, quando comecei a pensar nesse filme, queria fazer algo criativo com o som. E nada melhor do que trabalhar com silêncios. As falas, afinal, cobrem o som do filme. Então, já no começo, eu tinha essa ideia de silenciar os personagens e trabalhar todo o ambiente.

 

Sérgio: O filme tem esse caminho narrativo para contar, com muita calma, essa história. Você entende os personagens nos silêncios. É muito coisa das amizades masculinas também. Você curte as coisas juntos ao invés de falar sobre as coisas que acontecem. O Júnior tem momentos para relaxar com o Bento, não para falar sobre a tensão da vida. E o roteiro também vai se apresentando de forma lenta, seja pela duração dos planos ou pela forma de contar as coisas. Isso é uma das coisas mais legais desse filme, no geral.

 

Ariclenes: Foi difícil desconstruir o Júnior no silêncio. Uma coisa importante foi podermos ter ficado quase três meses, sem parar, em Saquarema. Vivenciamos isso.

 

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