Em 'Marés', o alcoolismo sem clichês ou estereótipos

13/09/2019

É o básico: quando uma novela, filme ou seriado possui um personagem alcoólatra, é feita uma dramatização exagerada. A pessoa, independente da idade, classe social ou credo, passa a agir de maneira bizarra, antissocial e extremamente emocional. Isso sem falar dos momentos de redenção, nos quais o personagem em questão percebe quais são os seus problemas e passa a falar deles abertamente, com uma sofreguidão que toma a tela. Marés, que acaba de chegar aos cinemas, vai num sentido contrário disso.

 

Primeiro filme do cineasta João Paulo ProcópioMarés conta a história de Valdo (Lourinelson Vladmir), um fotógrafo que vê sua vida se desdobrar de maneira triste e melancólica a partir de problemas com o álcool. Mas ao invés daquele exagero megalomaníaco dos personagens viciados na bebida, Procópio desenvolve uma história que vai se corroendo nos detalhes e apresentando uma sutileza desconcertante. É o alcoolismo real, do dia a dia, e que muitas vezes é ignorado pela maioria das pessoas.

 

"Era uma preocupação minha e do Lourinelson de que o Valdo não caísse em algumas armadilhas comuns a esses tipos de personagens. Buscamos construir um pessoa que fosse um alcoólatra funcional, como muitos são, nem que seja por uma etapa da vida", afirma Procópio ao Esquina. "Buscamos também humanizar a questão do alcoolismo. O alcoólatra, em geral, é visto como um párea na sociedade. Dificilmente é compreendido como um doente que é. Em filmes, invariavelmente, carregam soluções moralistas".

 

Na construção da trama de Valdo, o cineasta se vale de vários recursos que amplificam esse sentimento. A edição é rápida e há passagens de tempos longas, intercaladas apenas por um corte seco na tela. As coisas desmoronam rapidamente na vida de Valdo, como numa tragédia anunciada. Ao mesmo, os personagens ao seu redor quase não falam a palavra "alcoolismo" ou "alcoólatra". Parece haver um medo ou, ainda, uma cegueira que toma aqueles que o cercam. Como Valdo, essa figura, pode ser viciado?

 

Procópio conta que a ideia do filme e a abordagem original surgiram a partir de conversas, relatos e percepções sobre a doença. "Compreendi uma linha tênue onde as mesmas histórias por vezes eram entendidas como cômicas, outras como trágicas", afirma o cineasta. "Ao mesmo tempo, alcoólicos que frequentam reuniões de AA precisam exercitar a humildade e a autocrítica e, no fundo, são reflexões importantes para qualquer pessoa, ainda mais nesse momento polarizado do País".

 

Falando em polarização, é interessante a escolha da ambientação da história de Valdo. Procópio opta por contar a história de seu personagem doente num momento bem específico: o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. O que motivou essa escolha?

 

"2016 foi um ano em que me pareceu que todos estávamos bastante embriagados. Alguns bêbados eufóricos e outros depressivos. Mas todo um momento de crise e incertezas que deixou muitos de nós perdidos, sem saber por onde seguir", explica o cineasta. "Essa associação do momento do Brasil com embriaguez, a meu ver, segue até hoje. A diferença é que hoje  vivemos uma forte ressaca. Impressão que me dá agora é que precisamos todos beber água, cuidar do fígado, praticar humildade e a autocrítica".

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