Em 'Vermelho Sol', Benjamin Naishtat expõe o âmago da ditadura

14/08/2019

Entre os anos de 1960 e 1970, a América Latina viu uma onda de ditaduras varrer o continente. Por mais que cada uma tivesse uma particularidade, elas se mostravam como regimes altamente violentos e que sofriam uma naturalização por parte da elite econômica dos países. E é neste aspecto que se aprofunda o longa-metragem Vermelho Sol, do argentino Benjamin Naishtat. Sem nunca pronunciar a palavra ditadura ao longo dos 109 minutos de projeção, o cineasta cria o retrato perfeito desse período no País.

 

"Existem muitos filmes sobre as ditaduras na América Latina nos anos 1970, mas quase nenhum que fala sobre a naturalização do que acontecia por parte das elites desses países", disse o diretor em entrevista por telefone ao Esquina. "Queria falar sobre essa classe média que estava criando uma cultura bizarra em torno da ditadura. Até por isso, optei por não colocar a palavra 'ditadura' na boca dos personagens em momento algum".

 

Na trama de Vermelho Sol, conta-se a história de Claudio (Darío Grandinetti), um advogado de meia idade que vive uma vida calma e confortável com sua esposa em uma pequena cidade da Argentina da década de 1970, em plena ditadura. As coisas complicam em sua vida, porém, quando um detetive particular aparece na cidade determinado a achar um estranho com quem ele brigou meses atrás num restaurante.

 

A partir daí, Naishtat entra em ação, junto com seu diretor de fotografia, o brasileiro Pedro Sotero, para criar uma das ambientações mais impressionantes do cinema latino-americano nos últimos anos. O público consegue mergulhar na época junto com o personagem, sentindo-se parte fundamental do que se desdobra na tela do cinema.

 

"Foi um trabalho profundo de pesquisa para recriar a época", afirma Naishtat. "Primeiro, com um historiador que trouxe livro, artigos, estudos. Ele viveu aquela época, sofreu atentados. Além de muitos artigos sobre a estética da época, do visual. O Pedro Sotero também trouxe muitas referências de forma de filmagem, assim como a diretora de arte ajudou a criar um ambiente com o rigor histórico. A gente sabia que era essencial'.

 

Para Pedro Sotero, que surpreendeu em Aquarius O Som ao Redor, o grande desafio foi trazer um estilo próprio ao mesmo tempo que homenageava os grandes filmes sobre a época. "Benjamin me explicou que queria um estilo parecido com os filmes policiais dos anos 1970. Mas a gente tinha a preocupação de não virar pastiche, uma simples cópia dos americanos", disse o diretor de fotografia ao Esquina. "Foi preciso um trabalho em conjunto, e muita clareza por parte do Benjamin, para tornar tudo muito autoral".

 

Curiosamente, Vermelho Sol chega ao Brasil num momento em que uma parcela ruidosa de pessoas volta a naturalizar a violência -- ou até a exata-la. Naishtat, apesar de preocupado com a situação do País, mostra estar feliz por ver que seu filme pode servir para alguma reflexão. "Devemos sempre nos lembrar do que aconteceu nos anos 1970. Afinal, é triste ver, no Brasil, um presidente com simpatia à ditadura.", disse o cineasta. "Infelizmente, porém, parece que estamos voltando na nossa História".

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