'Foi uma experiência dilaceradora', diz Fernando Teixeira, de 'O Nó do Diabo'

20/06/2018

Fernando Teixeira atende, com um sotaque acentuado e uma voz forte, a reportagem do Esquina na hora marcada. Diretamente de João Pessoa, o pernambucano não esconde a animação em falar sobre o novo filme que protagoniza e acaba de chegar aos cinemas, O Nó do Diabo. "É um filme com uma inteligência que te tira do conforto", diz o ator.

 

O longa-metragem é mais uma incursão recente do cinema nacional na produção de fantasia e de terror. Usando as diferenças sociais e raciais no Brasil, o filme mostra os horrores que se perpetuam numa fazenda e que tem o personagem de Fernando como a figura centralizadora de cinco histórias -- que são, aliás, dirigidas por cinco cineastas distintos.

 

A produção, quase que inteiramente pernambucana, mostra que o cinema brasileiro não está mais se contentando apenas com histórias extremamente reais -- quase que documentais -- para retratar aspectos importantes do povo. Afinal, às vezes, é preciso ir além. "Às vezes, é importante ter um rompimento com a realidade pra sair da mesmice de sempre", concorda Fernando.

 

Abaixo, então, confira a entrevista completa do Esquina com o ator Fernando Teixeira, protagonista de O Nó do Diabo:

 

Esquina da Cultura: Fernando, o sr. tem vida dedicado ao teatro, recentemente esteve na novela 'Velho Chico' e também participou de dramas fortíssimos no cinema, como 'Aquarius'. Como 'O Nó do Diabo' se encaixa nessa sua filmografia? Como você recebeu o projeto, a ideia?

 

Fernando Teixeira: Eu conheço [a produtora] Vermelho Profundo desde o início, quando montaram e filmaram um espetáculo chamado O Hóspede. Participei do elenco e, desde então, fiquei dentro do grupo. Aí, quando surgiu a conversa de filmar O Nó do Diabo, a história já me chamou a atenção. É uma trama pesada, que as pessoas dão pouca atenção, e seria um desafio participar daquilo. Eu sou uma pessoa que tem uma certa sensibilidade sobe o assunto do filme. Não é uma coisa gostosa, é cáustica. Mas, ainda assim, essa foi uma experiência ímpar. Não é fácil viver esse personagem. É, de fato, desafiador.

 

Esquina: Seu personagem é como um fio condutor entre os cinco contos, já que você transita entre eles. Como foi compor esse personagem que é, essencialmente, complexo?

 

Fernando: Interpretação não é uma coisa que você liga e desliga. Essa transmutação, de você se envolver com outras vidas, outras questões, é muito forte. Não é uma coisa passageira. São coisas que você discute e que te fere, que te magoa. Você sai diferente após uma interpretação. É um acontecimento importante, ainda mais quando essa transmutação afeta as pessoas.

Esquina: Como foi a sua relação com o roteiro? Você ajudou na criação desse personagem?

 

Fernando: Foi tudo uma visão de Ramon, [roteirista e diretor]. Quando eu comecei a ler o texto, vi que poderia fazer de cada um dos coronéis, um personagem. Queria dar uma visão individual. Mas aí, quando disse isso pro Ramon, ele disse que a proposta do coronel é ser o mesmo. Nada muda. É aquela coisa hereditária, que não acaba nunca, que fica presa na política do País. É um monte de coronel que sentou a bunda no poder e não sai! A gente não pode cruzar os braços. Tem que mudar! É como você tirar uma pessoa e colocar outra igual.

 

Esquina: E como foi no 'set' de filmagem? A história é pesada. Isso influenciou na hora de filmar?

 

Fernando: A partir do momento que entrei naquele negócio, virei uma pessoa terrível. Por mais do que eu saia dali, aquela coisa continua em você. Foi um trabalho profundo. Eu falava que precisava jogar sal grosso ali. Porque a gente tava mexendo com coisa mais forte. Eu não sou místico. Eu sou cabra pé no chão. Mas olhe: aquele negócio ali foi muito incrível. A gente tinha discussões, era um agito, uma energia que não era legal. Só que como todo mundo era amigo, que seja. Mas tiveram conflitos, desencontros. É pesado!

 

Esquina: A gente tá vendo algumas iniciativas recentes no cinema no sentido da fantasia, do horror. Algo que o Brasil não tem muito investimento, muita história cinematográfica nesse sentido. Você, Fernando, acha que estamos entrando num momento de criar o terreno para essas produções?

 

Fernando: Eu acho o seguinte… É um assunto que está aparecendo. É um terror real, que é sobre as nossas vidas. O Desejo do Morto, [curta do Vermelho Profundo], tem um rompimento forte, que dá um retorno do horror ao mundo real. E eu acho que o pessoal do Vermelho, como o Ramon, o Jhésus, que compõem aquela empresa, são incríveis, inteligentes. O Ramon é um terror (risos). Desculpa, Ramon! A gente não pode ficar na mesmice, no ódio. É uma inteligência que avança, que descobre novas coisas. É isso que me comove, me locomove.

 

Esquina: Qual sua expectativa para com o filme que agora sai dos festivais e chega ao público?

 

Fernando: Velho, eu acho que é um abismo. São pessoas que tem uma certa abertura e que podem entrar naquela história como sendo uma contestação. Mas eu espero que as pessoas compartilham do sentimento que eu tive, de viver uma experiência dilaceradora.

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