Jacques Fux lança livro que imagina discurso no prêmio Nobel

02/05/2018

Você já imaginou o que discursaria e o que faria se ganhasse um Oscar? Ou um Pulitzer? Um Nobel? O escritor mineiro Jacques Fux não apenas imaginou, como também escreveu um livro aventando essa última possibilidade. É o recém-lançado Nobel, da José Olympio, que chegou às livrarias neste mês. Irônico e satírico, a nova obra do premiado autor  de Antiterapias Brochadas faz um passeio pela mentalidade do panteão de escritores mundiais.

 

"É um narrador que coloca o dedo na ferida. Que revela e expõe infâmias, segredos, maledicências, e atos inglórios e vergonhosos dos escritores e de toda sociedade", explica o autor em entrevista exclusiva ao EsquinaNobel, aliás, acaba fazendo parte de uma "quadrilogia" do mineiro, que explora um personagem sempre em constante perturbação, seja ela amorosa ou em desconexão com a sociedade. É um sinceridade literária e social desconcertante.

 

Quem lê a nova obra provocativa de Fux não sai impassível do processo. Ao longo da trama, que é a completa "decupagem" de um discurso do Nobel, sobre alfinetadas para todos os lados: desde escritores, a essência da literatura e indo até a própria entidade que provê a tal premiação. "Nobel  foi publicado justamente no momento em que se revela o lado obscuro, misógino, assediador da Academia Sueca. Será que o livro desencadeou esses episódios?", provoca o autor

 

Abaixo, então, confira os melhores trechos da entrevista de Fux ao Esquina, onde ele comenta a inspiração para seu novo livro, a saga de seu protagonista e o que espera com a nova publicação:

 

Esquina da Cultura: Antes de tudo: como surgiu a ideia de 'Nobel'? Onde ele se encaixa dentro da sua obra recente?

 

Jacques Fux: No meu primeiro livro de ficção, Antiterapias, o narrador já menciona o desejo de receber a láurea maior da literatura. Ao longo da minha obra, esse “mesmo” narrador enfrenta diversos problemas: o primeiro amor e os desencontros amorosos (em Antiterapias), o encontro e a descoberta com a sexualidade, e também com as falhas, com o imponderável, com a desconexão e o entendimento do outro (em Brochadas); a questão da loucura, do bullying, do ódio pelo diferente e pelo estrangeiro (em Meshugá). E então, finalmente curado, ou mais perturbado ainda, o narrador recebe o Nobel!
E o Nobel, por acaso ou competência do “destino”, foi publicado justamente no momento em
que se revela o lado obscuro, misógino, assediador da Academia Sueca. Será que o livro
desencadeou esses episódios? Matérias no mundo estão revelando casos de assédio e política nessa prestigiosa instituição.

 

Esquina: Nos seus últimos livros, você está seguindo uma tendência de colocar anti-heróis no centro das histórias, desconstruindo algumas figuras. Aqui você vai de encontro ao escritor premiado. Como foi compor essa personagem?


JF: Esse personagem, de fato, é bem satírico e perverso. É um narrador que coloca o dedo na ferida. Que revela e expõe infâmias, segredos, maledicências, e atos inglórios e vergonhosos dos escritores e de toda sociedade. Mas ele também se coloca como protagonista de todos esses atos. Ele é o outro “autor” e o outro “protagonista”. Ele assume um papel quixotesco e borgiano ao se tornar/transformar/transtornar nos seus heróis desconstruídos. Ele é um personagem rico literariamente falando e que quer colocar a baixo os moinhos de vento que são o alicerce das Instituições e da politicagem humana.

 

Esquina: O livro há um quê de kafkiano. Além de Kafka, qual foi a inspiração para a escrita de 'Nobel'?
 

JF: Sim. O livro inicia falando do “Relatório para a Academia” que Kafka escreveu. Um texto irônico em que o protagonista – um macaco – faz um discurso para os “Acadêmicos”. Além de Kafka, há muito de Borges e Foucault – quando eles falam da vida dos homens infames – e, claro de todos os autores laureados e canônicos. Li e pesquisei a vida e obra de quase todos os laureados, além de ler seus maravilhosos discursos ao receberem o Nobel!

 

Esquina: Acredito que, de alguma forma, 'Nobel' possa incomodar um pouco o meio literário. Como você encara isso? Acha que pode ter reações contrárias?


JF: Acho que o Nobel não acusa se abstendo dos crimes e das faltas. Não. O Nobel se coloca no meio em que está inserido. Ele fala das próprias infâmias perpetradas, da hipocrisia, da sua própria desconstrução. Mas o livro faz uma apologia à Literatura! É um livro que glorifica os cânones literários e idolatra a ficção.

 

Esquina: Qual sua expectativa com relação ao 'Nobel'?

 

JF: Uai, obviamente receber o prêmio Nobel! Afinal, para você receber o milhão de dólares você precisa de duas coisas: ser nomeado e entregar o discurso. Se você só for nomeado, mas não entregar em até seis meses o discurso de aceitação, você não recebe esse milhão. No meu caso, já tenho o discurso pronto e “entregue”. Fico aguardando a nomeação!

 

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