Mais que biografia, ‘O Livro de Jô’ é retrato cultural brasileiro

19/02/2018

Jô Soares, além de apresentador, comediante, roteirista e ator, também já se consagrou no mundo da literatura. O multiartista, ao longo de suas cinco décadas de carreira, emplacou romances que se tornaram best-sellers, como As Esganadas, O Xangô de Baker Street e o ótimo Assassinato na Academia Brasileira de Letras. No entanto, Jô agora deixa a ficção e o romance policial de lado para contar sua história de vida em O Livro de Jô, editado pela Cia das Letras.

 

O livro, que ainda ganhará um segundo volume neste ano, não tem um fio narrativo claro ou limitador. Durante as mais de 400 páginas, Jô conta detalhes sobre sua vida, sua carreira e sua família de acordo com o que vem em sua mente, sem se prender nas formalidades de texto -- como é comum em autobiografias de grandes personalidades, prontas pro grande público. São dezenas de histórias e informações que vão se aglutinando de maneira muito divertida.

 

Esse estilo de escrita é compreendido quando entendemos a forma que Jô escreveu a sua autobiografia. Em entrevista ao editor Ubiratan Brasil, no Estadão, o ex-apresentador disse que não conseguia escrever o livro de sua vida, deixando apenas algumas frases soltas em um arquivo de Word. A coisa só mudou quando ele recebeu uma visita de Luiz Schwarcz e Matinas Suzuki Jr., editores da Companhia das Letras, que o incentivaram a tocar o livro de memórias.

 

Jô, então, começou a receber visitas periódicas de Matinas Suzuki Jr. para falar sobre as passagens de sua vida ao editor. Ou seja: é um livro de memórias que vêm e que vão de acordo com as próprias lembranças do Jô. “Sou a soma do que devo aos meus pais, Mercedes e Orlando, e também aos meus amigos”, conta o multiartista à reportagem do Estadão, explicando a quantidade absurda de histórias.. “O livro é fruto do conjunto desses encontros.”

Desses encontros surgiram histórias impactantes na vida do apresentador, como a morte da mãe, atropelada por um taxista; as lembranças do filho Rafael, que sofria de autismo e foi vítima do sensacionalismo brasileiro; além, é claro, da surpreendente formação internacional de Jô, passando pelos Estados Unidos e por países nórdicos. É um mergulho completo e direto na vida de um dos artistas mais inteligentes, interessante e importantes do Brasil.

 

No entanto, mais do que histórias da vida do próprio Jô, sua autobiografia é um verdadeiro retrato cultural brasileiro. Em momento algum ele se limita a passagens de sua vida ou de sua carreira. Pelo contrário: várias e várias páginas são dedicadas à grandes artistas que conviveram ou tiveram alguma importância na vida do humorista. Adoniran Barbosa, Orson Welles, Boni, Rubem Braga, Golias, Carlos Alberto de Nóbrega. São vários os nomes nessa costura de histórias.

 

Assim, O Livro de Jô é quase um Forrest Gump brasileiro. Delicioso de ler, divertido para se relembrar. É mais que uma autobiografia. É uma reverência ao passado, às histórias e às pessoas que contribuíram para a formação cultural brasileira. Agora, é esperar pelo próximo e último volume de memórias do Jô. Se a qualidade continuar a mesma, teremos uma das obras autobiográficas mais interessantes da literatura brasileira moderna. Não dava para se esperar menos do Jô, é claro.

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