Novos livros da saga ‘Millennium’ insultam memória de Stieg Larsson

06/11/2018

Sempre fui da opinião que não é pra mexer em obras de escritores que já morreram. Ainda que Sherlock Holmes tenha algumas histórias independentes interessantes, a grande parte  não funciona. Veja, por exemplo, Agatha Christie: ela deixou muito claro que não queria que mexessem em Hercule Poirot. Mas, vira e mexe, acaba surgindo um livro póstumo. E com o escritor Stieg Larsson não é muito diferente. Ele deixou a Trilogia Millennium pronta e sem a necessidade de novas continuações. O dinheiro chamou mais alto, porém, e a família deixou o escritor David Lagercrantz escrever histórias de Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist. Não funcionou.

 

Veja bem: Larsson conseguiu algo muito difícil com a trilogia Millennium. Ele criou uma trama de suspense interessante,  que prende o leitor,  e com personagens absurdamente reais que dialogam com problemas verdadeiros e palpáveis da sociedade sueca - e de outras ao redor do mundo. É um resultado difícil de encontrar na literatura. Afinal,  não é simples unir trama instigante com crítica social.  É uma tarefa hercúlea que Larsson,  como jornalista e escritor, fez história.

 

Lagercrantz, no quarto livro, A Garota na Teia de Aranha, já mostrou não ter as habilidades literárias de Larsson. Primeiro, erros técnicos mesmo. Os diálogos são ruins e Lagercrantz mostra não ter habilidade alguma para compôr personagens -- mesmo quando eles já são escritos em livros anteriores. Falta emoção e fica aquela eterna sensação de quem é fã de Larsson: ele teria escrito isso?  A Lisbeth, do Larsson, agiria dessa forma? E Mikael? O que ele faria?

E a coisa piora quando pensamos na união entre trama instigante  e crítica social.  Ela não funciona aqui. Lagercrantz não tem habilidade  de unir as duas coisas e a história, no final das contas, acaba ficando extremamente água com açúcar -- como uma leitora muito bem observou na rede social Skoob,  Lagercrantz  parece estar dando continuidade ao filme de David Fincher.

 

Só que eu acreditei que as coisas podiam mudar e dei mais um voto de confiança ao autor: comprei, recentemente, o quinto livro da série -- O Homem que perseguia a sua sombra. E que desastre! Tive vontade de abandonar a leitura diversas vezes em memória de Larsson. Afinal, Lagercrantz deixa bem claro aqui que não absorveu nada do que o escritor original queria com seus livros. Pior! Ele percebeu a enxurrada de críticas no primeiro e tentou, de maneira torta, adicionar uma trama de crítica social ao quinto volume da saga. Ficou uma bagunça.

 

Lisbeth, que é a alma de Millennium, está mais apagada do que nunca e serve apenas como escada para essa personagem aleatória, sem sentido narrativo, que tenta cobrir o buraco que faltou da tal crítica social. Mas não adianta! Lagercrantz, claramente, não entendeu o que os fãs buscam:  uma  trama instigante que tem uma crítica social embutida e perene, transitando entre os dois personagens que tanto amamos  -- principalmente Lisbeth, que está irreconhecível.

 

E pior: o livro não funciona nem como um passatempo qualquer de literatura policial. Ele tem uma trama chata, sem profundidade e que não atrai as pessoas à leitura. A vontade é largar o livro no meio e esquecer que ele existe. É um insulto à memória de Stieg Larsson, um insulto à literatura sueca e, principalmente, um insulto aos fãs de Millennium. Depois do quinto livro, voltei a considerar a obra de Larsson como uma trilogia fechada de três livros apenas.

 

O resto, pra mim, é apenas fanfic de alguém que tenta se aproximar da obra real, mas sem sucesso. Uma pena.

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