'O Cheiro do Ralo' é estranho, mas conta com trama fascinante

04/06/2018

"Esse cheiro que você esta sentido é do ralo." 

 

Lourenço Mutarelli é um gênio. Um gênio dos quadrinhos, dos livros e da vida. Tenho a honra de conhecê-lo pessoalmente e posso dizer, com prioridade, de que Lourenço é um gênio em tudo que faz. Desde os quadrinhos até os romances. Vejo sempre a genialidade de seus traços ou escrita. E isso não foge a regra em O Cheiro do Ralo. 

 

Provavelmente, O Cheiro do Ralo é a obra mais conhecida de Lourenço. Além de ter tido sua adaptação cinematográfica muito bem recebida e com uma grande bilheteria, o livro também possui um enredo impecável. Ele narra a história do dono de uma loja de objetos usados que, ao mesmo tempo que se apaixona pela atendente da lanchonete  que frequenta,  começa a ter problemas com o cheiro do ralo de seu banheiro. 

 

Apesar do enredo aparentemente estranho, a história vai se desenvolvendo de forma fabulosa. Os conflitos pessoas do protagonista, que não possui nome, deixam a leitura ainda mais interessante. Além disso, ele vai se enfiando cada vez mais nos problemas que o envolvem e isso deixa a história fascinante. Apesar de desprezível, o protagonista acaba encantando o leitor. 

 

De todas as coisas que eu tive, as que mais me valeram e as que mais sinto falta, são as coisas que não se pode tocar, são as coisas que não estão ao alcance das nossas mãos, são as coisas que não fazem parte do mundo da matéria. 

 

A leitura em si também é fantástica. O ritmo dado deixa a história ainda mais envolvente. Várias vezes, inclusive, me senti numa história em quadrinhos sem desenhos. As falas, os sentimentos e as emoções são jogados na cara. Demora-se um pouco para se adaptar a leitura, mas quando se acostuma, o enredo se desenvolve a história prende ainda mais o leitor.  

 

A narrativa também ajuda a aprofundar ainda mais o vazio, a perturbação provocada pela obra. A falta de ação do personagem, o comodismo, a falta de caráter. Tudo isso, toda essa falta, auxilia no aumento da profundidade dos problemas psicológicos dos personagens que compõe a trama. 

 

Além disso, vale sugerir que todos assistam ao filme inspirado na obra de Lourenço. Heitor Dhalia fez um trabalho monumental. A interpretação de Selton Mello foi esplêndida e o roteiro muito bem adaptado. Uma verdadeira joia rara do cinema brasileiro. 

 

Enfim, O Cheiro do Ralo é sensacional. Tanto o livro, quanto o filme. Das diversas maneiras possíveis de encerrar esta resenha, a mais adequada é, com certeza, a carta do também gênio Arnaldo Antunes ao Lourenço Mutarelli, sobre a obra em questão, que retrata perfeitamente o que foi dito aqui: 

 

"Caro Lourenço, 

 

Esse aqui é só para te dizer que curti pra caramba O Cheiro do Ralo. Li com muito gosto, envolvido até o osso. O livro tem pique de gibi, mesmo sem ter os desenhos. É engraçado isso... 

 

Engraçado também a gente ir simpatizando e mesmo torcendo pelo narrador, mesmo ele sendo meio detestável. 

 

Um grande abraço do 

Arnaldo Antunes"

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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