Opinião: 'A Barraca do Beijo' e a atual relevância da crítica

12/05/2018

Na última sexta-feira, 11, como é de costume, fui assistir ao filme original da Netflix lançado durante a madrugada. A bola da vez era a comédia adolescente A Barraca do Beijo. Me preparei psicologicamente e dei play. O que se desenrolou na tela foi um filme fraco, apático e com uma história batidíssma -- e, o que mais me incomodou, com uma série de temas delicados tratados com descaso, como abuso físico, abuso psicológico e violência gratuita.

 

Obviamente, não tardei a ligar o computador para escrever a costumeira crítica aqui para o Esquina. Rapidamente, a audiência começou a subir, a subir, a subir e, de uma hora pra outra, o post se tornou um dos mais acessados deste um ano de existência do site -- pasmem, passando até mesmo entrevistas com o criador de 'Coragem', com Darren Aronofsky e Tom Zé. E claro, logo começaram a pipocar os comentários no pé da matéria.

 

E o que se viu dessa onda de comentários foi uma grande incompreensão do papel da crítica no cinema. Eu ainda tenho muitas dúvidas se devo considerar os textos que escrevo como "crítica", mesmo cobrindo arduamente este segmento há, pelo menos, cinco anos -- passando por locais como o site Literatortura, pelo Estadão e pela página  Virau.  Mas por uma facilitação temática pra categorização do site, resolvi chamar de crítica.

 

Só que nos comentários, a maioria das pessoas diziam que o texto era exagerado, incorreto. Veja o que a leitora Giovanna Xavier ressaltou: "crítica extremamente sem necessidade. Vir aqui e acabar com um filme simplesmente por não ser do seu agrado?", exclamou. "Assista ao filme e se o filme não foi bom para você, certamente você esta fora do público alvo traçado a este filme", finalizou a defensora de Barraca do Beijo. 

 

De fato: muitas vezes, um filme não é feito pra mim. Recentemente, fui assistir à animação Pedro Coelho. Achei bonitinha, engraçadinha, e só. Mas isso eu enquanto pessoa física. Mas, colocando-me no lugar de crítico, tive que compreender aquele filme como uma criança compreenderia e, por isso, Pedro Coelho ganhou destaque aqui no Esquina. Afinal, quando vejo um filme, são duas compreensões que se mesclam: a da pessoa e a do crítico.

 

Não foi diferente com A Barraca do Beijo. Sabia que o filme era baseado numa história do Wattpad escrita por uma garota de 14 anos. Ou seja: o público-alvo era, mais ou menos, o mesmo da criadora do negócio todo -- como ficou provado com a chuva de comentários negativos na crítica. Me coloquei no lugar, vi o filme com outros olhos. Só que, ainda assim, é preciso manter algum senso crítico. Senão, a coisa desanda e as avaliações perdem o valor.

 

Afinal, A Barraca do Beijo  possui elementos tão grosseiros e tematicamente errados que é impossível se manter fora de uma discussão sobre isso. Como disse lá no comecinho, o filme possui uma idealização absurdamente estereotipada do que é ser adolescente, brinca com violência física e pior: deixa um momento de abuso sexual passar incólume na tela. Um rapaz passa a mão por baixo da saia da menina e ela vai pra direção por usar roupa inapropriada! E o rapaz, que o diretor diz que vai ser punido, está frequentando a escola no dia seguinte e, ainda por cima, marca um encontro com a garota abusada.

 

Não tem, simplesmente, como dizer que isso é correto, é bom, é positivo, é lógico. Não se pode chamar isso de filme bonitinho. Quer ver algo romântico pra chorar? O mundo está repleto de filmes assim, a la Nicholas Sparks, e disponíveis na Netflix -- sem causar um absurdo desse. Quer rir? Há dezenas e dezenas e dezenas de comédias ótimas por aí -- inclusive A Noite do Jogo, que acaba de estrear. Não preciso e não vou defender um filme como A Barraca do Beijo apenas por ter um público diferente, uma história por trás ou ser bonitinho.

 

Para emocionar, para ficar marcado na história e para ser bonitinho, não precisa passar ideias erradas para pré-adolescentes, geralmente tão maleáveis e influenciáveis. Assim, não retiro uma única vírgula do que disse na matéria. Apenas reafirmo: é preciso manter o senso crítico nesses casos. Não adianta pensar como pré-adolescentes. Senão, absurdos como esse passam sem que ninguém chame atenção. E aí qual o papel da crítica?

 

Faça coisas bonitinhas que não precisa pensar e que são feitas para chorar ou rir. É bom! Mas respeite as pessoas. Senão, não importa o quão forte seja a onda de comentários negativos. Vou manter a minha opinião.

 

 

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