Opinião: Indicações do Brasil ao Oscar carecem de coesão

27/08/2018

Outro dia, durante coletiva de imprensa do filme O Animal Cordial, o produtor pop Rodrigo Teixeira (Me Chame pelo Seu Nome, A Bruxa) disse que o problema do Brasil no Oscar estava na falta de coerência e de "espírito nacional" nas escolhas feitas pela Secretaria do Audiovisual. E de fato: nos últimos anos, é perceptível como não há um consenso dentro os votantes sobre o que representa, ou não, o audiovisual do País.

 

Sintoma disso é a lista dos 22 representantes do País para a corrida do Oscar 2019. Sem dúvidas, há muita coisa boa ali, mas muitas outras boas produções ficaram inexplicavelmente de fora -- ou será que tem explicação? Além disso, parece que ainda falta uma coerência para o que está sendo apresentado. Falta coragem de apresentar o que o Brasil produz de melhor em seus recônditos e, muitas vezes, acaba ficando algo superficial.

 

Mas vamos por partes. Primeiro problema: há filmes de qualidade extremamente debatida e controversa na lista. Entre Irmãs, por exemplo, é uma bomba. Parece uma telenovela feita em larga escala com a tentativa de criar um épico nacional. Paraíso Perdido, de Monique Gardenberg, não é de todo ruim, mas funcionaria muito mais se fosse uma série. E quem inventou de colocar Alguma Coisa Assim na lista? É bonzinho..

 

E não teria problema nenhum desses filmes entrarem na lista se não fosse por dois títulos: Arábia Gabriel e a Montanha. O primeiro é um absurdo do mesmo nível de Aquarius. O longa-metragem, afinal, não é apenas um filmaço em termos narrativos e sociais, como caiu no gosto dos críticos americanos. Ainda que não seja o favorito, serviria muito bem como representante. E Gabriel e a Montanha é um filme global que deveria ter, pelo menos, o reconhecimento de sua qualidade e de sua importância.

 

Além disso, se fosse pra ser ainda mais chato, teria outros filmes para limpar. Não por serem ruins, pelo contrário. Mas por não terem a tal "cara de Oscar" -- seja lá o que isso significa. Mas é a certeza de que nunca chegariam lá: Além do Homem, que é absurdamente experimental, ainda que muito bom; Unicórnio, que tem um apelo para a fantasia que não agrada os votantes da Academia; e Ex-Pajé, complexo por si só.

 

Falta, então, uma coerência no que está sendo proposto. O Brasil, nos últimos anos, tem entregue um cinema extremamente plural e com qualidade em quase todos os gêneros. O terror, por exemplo, tem se desenvolvido de maneira surpreendente. Mas o que queremos levar lá pra fora? Experimentalismo, fantasia, a dura realidade, cinema de guerrilha? É importante, sim, ter diversidade -- aliás, há de se comemorar o número de diretoras aqui. Mas a diversidade de gêneros cinematográficos, no final, pode acabar atrapalhando na "degustação".

 

E no final, o grande representante deverá ser, quase sem dúvidas, Benzinho -- e acho extremamente possível que ganhe a esperada nomeação para Melhor Filme Estrangeiro. As Boas Maneiras O Animal Cordial correm por fora, mas sem a mínima chance de representação. Mas fica aqui nossa torcida, é claro. Seja Entre Irmãs ou Benzinho, já passou da hora do Brasil voltar para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro. E, quem sabe, trazer o careca dourado para casa. Faz tempo que a chance não está tão grande.

 

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