Resenha: 'A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água' exibe bom humor de Jorge Amado

21/08/2019

Geralmente, Jorge Amado é categorizado de duas maneiras. Ou como autor sério e político, como em Mar Morto Suor; ou como aquele escritor que sabe entrar na mente, na alma e no âmago do nordestino, como em Gabriela, Cravo e Canela e, de certa maneira, em Capitães da Areia. No entanto, há uma pequena variação entre esse dois  que pode ser lida, com bom-humor, em A Morte a Morte de Quincas Berro D'Água

 

Conto para uma revista e que, posteriormente, foi transformado em livro, A Morte de Quincas (como vamos chamá-lo) acompanha os desdobramentos do falecimento de um cachaceiro ali da Bahia. A família já não o reconhecia mais e mantinha um relacionamento distante. Os amigos, enquanto isso, o tinham como uma figura de ares mitológicos e que, de certa maneira, comandava a vida noturna daquela antiga Bahia.

 

A partir daí, Jorge Amado se debruça sobre as reações desses dois grupos bem distintos frente à morte de um homem que, ao decorrer de sua vida, adotou dois tipos de faces. É uma escrita ágil, fácil de ser absorvida, e que é acompanhada de um humor e uma ironia finos e típicas do baiano. Não há aspectos políticos enraizados na trama e tampouco pode-se dizer que A Morte de Quincas é a alma da Bahia de outros tempos.

 

Há, sim, aspectos que surgem aqui e ali sobre a cidade. Mas este livro é, principalmente, sobre uma figura que habitou o imaginário de Jorge Amado e que, de certa forma, existiu -- essa história sobre o verdadeiro Quincas Berro D'Água está maravilhosamente contada no posfácio da edição mais recente da Companhia das Letras. Este livro é, sobretudo, uma aula de como criar e desenvolver um personagem, mesmo que morto.

 

O coração de A Morte de Quincas, afinal, é a colocação do personagem-defunto em situações extremas. A forma como as pessoas o acolhem é tão maravilhosamente bem retratada por Jorge Amado que Quincas, em determinado momento, parece um amigo de longa data. Não há diálogos do personagem, não há nenhuma cena em que ele está vivo. Mas, mesmo assim, o personagem transborda em cada ato, cena e conversa.

 

Muitos, ao final, podem achar que A Morte de Quincas é um livro menor de Amado. E o é, de fato -- afinal, a trama em si é apenas engraçada e divertida, sem nenhum aspecto que a deixe marcada além disso. No entanto, não se pode reduzir a importância da obra dentro de seu contexto literário. Para quem está entrando no universo de Jorge Amado, é um convite para ir além. E entender que bons personagens nem precisam estar vivos. 

 

 

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