Resenha: 'Caetés' é brilhante livro de estreia de Graciliano Ramos

20/11/2019

A entrada de Graciliano Ramos no mundo da literatura não poderia ter sido melhor. Autor de clássicos como Vida Secas S. Bernardo, o alagoano deu os primeiros passos literários com Caetés, obra que acompanha a jornada de João Valério, um homem desiludido, quase frustrado. Afinal, ele possui duas difíceis jornadas: a escrita de seu próprio livro, sobre o povo caeté, e o amor impossível pela esposa de seu patrão.

 

A partir disso, Graciliano tece uma trama intrincada sobre este homem que precisa lidar com seus desejos, ambições e restrições enquanto é obrigado a viver. Parecido com os protagonistas de Angústia S. Bernardo, João Valério é um homem que carrega experiências difíceis, quase dolorosas. E, o pior de tudo, que nem são necessariamente sobre coisas vividas. Mas sobre coisas que não puderam ser experienciadas de fato.

 

Como ressaltado em matéria publicada aqui no 'Esquina', Graciliano Ramos tem um estilo de escrita muito próprio. É limpo, direto, sem excessos. Com poucas palavras, e pouquíssimos adjetivos, vai direto na alma do protagonista -- e, por consequência, na do leitor. Alcança pontos invisíveis, sensações subjetivas. Por mais que João Valério tenha métodos pouco ortodoxos em alguns momentos, é possível entendê-lo, aceitá-lo.

Luísa, a paixão arrebatadora de João Valério, não é tão bem desenvolvida quanto Madalena, de S. Bernardo -- ainda que, mesmo nesse caso, a personagem fica abaixo do que poderia. Ainda assim, é interessante o contraponto que ela causa no protagonista e como ela trabalha as emoções, as situações. As reações são humanas, verdadeiras. As coisas se desenrolam nas páginas de maneira muito natural, fluída.

 

No entanto, há de se destacar que este é um livro de estreia. E, mesmo sendo um livro de estreia de Graciliano Ramos, há nuances que são percebidas para quem leu obras posteriores antes destes primeiros passos do alagoano. As comparações, assim, são inevitáveis. Há dificuldade em manter algumas narrativas e certas subtramas somem numa falta de delicadeza -- algo que, de certa forma, Graciliano obtém posteriormente.

 

Mas, como dito, Graciliano Ramos é Graciliano Ramos. Por mais que tenha problemas, o final levanta a obra. Li, por aí, que algumas pessoas o acham corrido demais. Estranho, por conta de tudo que é construído e levantado durante a leitura. Mas há um cinismo, uma ironia tão fina. Algo típico de Graciliano e que acabou se tornando uma de suas marcas posteriormente. O final faz com que todo livre ganhe um novo significado.

 

Um significado ainda mais potente, profundo e interessante. Que grande livro de estreia!

 

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