Crítica: ‘Últimos Dias em Havana’ mostra nova realidade de Cuba

25/08/2017

Poucos sabem, mas Cuba tem um cinema riquíssimo. Em 1964, por exemplo, o belíssimo Eu Sou Cuba mostrou o período entre a derrubada do regime de Batista e a revolução Cubana. Depois ainda tivemos outros destaques, como A Partida, sobre um romance entre dois homens, e a divertidíssima -- e inesperada -- comédia Juan dos Mortos. Agora, chega um filme que retrata a Cuba de hoje como ninguém: o drama Último Dias em Havana, com a direção de Fernando Pérez.

 

No centro da história, dois homens. Um deles é Diego (o incrível Jorge Martínez), que vive na cama por conta de complicações do vírus HIV. Do outro lado, Miguel (Patrício Wood), um homem amargurado que cuida de Diego nas horas vagas de seu trabalho numa lanchonete. O seu grande sonho, é claro, é partir de Cuba e ir morar em solo americano. Mas aí surge a grande pergunta do filme: se ele for para os Estados Unidos, o que vai acontecer com o cada vez mais debilitado Diego?

Neste conflito de interesses, o diretor Fernando Pérez cria uma reflexão sobre a Cuba de hoje, já transformada e com um sentimento diferente pelas ruas de Havana -- que já passa a viver a modernidade de novos tempos. Tudo isso, é claro, permeado pelo enredo sobre Miguel e Diego, mostrando um forte vínculo de amizade e, principalmente, humanidade das pessoas daquele País. Tudo isso ainda sem perder o bom humor e leveza típica dos filmes de Pérez (de Suíte Havana).

 

Com esta premissa, o diretor cria um filme delicado. A atuação de Martínez e Wood, aliás, é a cereja do bolo de Últimos Dias em Havana. Muito entrosados, os dois atores cubanos criam cenas memoráveis e que deixam toda a trama mais impactante e verossímil. Wood faz um homem melancólico e sisudo, enquanto Martínez é sensual, tagarela e tem fome de viver -- ainda que preso à cama. Diego é uma das mais interessante e marcantes personagens do cinema cubano recente.

 

Neste tecer de personagens e histórias, então, encontramos aquela Cuba que não está na mídia, que não está no turismo cada vez mais crescente ao País. Aqui, vemos o lavador de pratos contrário à revolução e que sonha ir pra Cuba; o migrante P4 que sai do interior do País e vai para a capital se prostituir em busca de sonhos; e o homem que sofre de aids e não tem amparo de família e amigos, que só pensam no dinheiro que ele vai deixar. É Cuba dos bastidores, tão bem trabalhada por Pérez.

 

O problema em Últimos Dias em Havana está no último ato, quando a atriz Gabriela Ramos entra em cena como a sobrinha de Diego. Chata e muito sem graça, ela toma conta da narrativa com uma trama que não acrescenta nada à história. E o final, um pouco previsível, também é prejudicado pelo excesso de aparição de Gabriela, que se torna, de uma hora pra outra, a protagonista. Uma cena final, com quebra da quarta parede, também é vazia de sentido. Acaba ficando didático demais.

 

No fim, porém, o novo filme de Fernando Pérez agrada e faz um serviço ao público pouco comum ao mostrar os bastidores de Cuba hoje em dia, sem apelar para exibições turísticas ou que agradam o público. O contexto político, ponteado nas entrelinhas do roteiro de Pérez e Abel Rodríguez, deixam tudo ainda mais interessante. E assim, Últimos Dias em Havana se torna um dos filmes mais interessantes do ano. Vale a pena ver.

ÓTIMO

 

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