'Uma Rua de Roma' transforma leitor em aliado de protagonista

02/06/2017

Escrito por Patrick Modiano, vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 2014Uma rua de Roma é um desses acontecimentos literários capazes de deixar no leitor uma experiência de leitura participativa.

 

Em pouco mais de duzentas páginas, acompanhamos o detetive Guy Roland, vitima de amnésia, em busca de eventos e pessoas que tenham feito parte de sua vida pregressa. Se a busca de Roland ocorre de forma simples, quase sequencial, a intersecção de personagens e situações transpassam a narrativa presente criando um tear de pontas soltas — as quais, nem todas, serão amarradas.

 

É nessa linearidade também que o autor deixa diversas lacunas de conhecimento, o que exige uma grande contribuição do leitor como ativo da história, a exemplo do que Umberto Eco explica em Seis passeios pelos bosques da ficção

 

Se por um lado o leitor é cobrado como protagonista na construção da história, por outro ele somente acompanha os desdobramentos da mesma forma que Guy. É como se, ao longo da leitura, víssemos e vivêssemos como o próprio personagem, sendo seus olhos e não sua sombra. Esse foco narrativo em primeira pessoa — ora no presente, ora no passado — não é constante.

 

Há momentos em que somos confrontados por um narrador observador que nos situa na história — seria o próprio Guy? — e por perspectivas de outros personagens que não estão diretamente relacionados aos desdobramentos, mas que compuseram um detalhe da peça do quebra-cabeça que Roland busca completar. O foco narrativo pendular, portanto, atua como uma espécie de costura dos retalhos. 

 

Um dos pontos altos da narrativa é a sutileza. São poucos os autores que conseguem abordar assuntos e situações sem falar o nome deles. Em Uma rua de Roma, Modiano insere o leitor no ambiente de uma forma natural, sem imposições. Sabe-se que o tempo presente da narrativa se passa em 1965 e que o passado do protagonista situa-se entre 1940 e 1944, durante a ocupação nazista na França — este fato, porém, jamais é nomeado. Fala-se somente em dias difíceis.

 

Quando se vira a última página de Uma rua de Roma, a quantidade de incertezas e perguntas não respondidas pelo autor Patrick Modiano nos deixa, estranhamente, com a sensação de completude. Assim como Guy Roland, jamais saberemos todos os fatos de nossa vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Título: Uma Rua de Roma

Autor: Patrick Modiano

Ano: 1978

Preço médio: R$ 25

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