Diretor de 'Clube dos Cinco', John Hughes captou alma da juventude

07/03/2017

Poucos cineastas tem um estilo tão característico quanto John Hughes. Diretor de clássicos como Clube dos Cinco, Gatinhas e Gatões e Curtindo a vida adoidado, o norte-americano conseguiu captar o espírito dos jovens dos anos 1980 e passar o sentimento para a tela com uma precisão quase cirúrgica — ainda que com uma dose de romantismo, comédia e alguns personagens caricatos.

 

Curiosamente, no entanto, Hughes foi deixado de lado durante todo o seu período de maior produção artística — durante os anos de 1984 e 1986, principalmente. Apesar de muitos fãs em todo o mundo, a crítica e a imprensa especializada o esnobava até mesmo quando ele conseguia emplacar grandes sucesso de bilheterias, seja como roteirista em Esqueceram de Mim ou como diretor em Mulher Nota 1000.

 

“John Hughes nunca recebeu a atenção que merecia dos críticos de cinema”, diz o biógrafo do cineasta, Kirk Honeycutt, em entrevista ao Esquina. “Ele trabalhou com gêneros que não interessam a maioria dos críticos, que são os filmes voltados para adolescentes e depois filmes voltados para o público familiar. Infelizmente, os críticos ignoraram e ainda o ignoram, mesmo sendo tão reconhecido pelo público.”

 

Hughes não precisou da aprovação dos especialistas em cinema para se tornar um dos principais nomes da sétima arte. Seus filmes lotavam salas de cinema quando estavam em cartaz e, anos depois, se tornaram sucesso na programação das TVs de todo o mundo. No Brasil, a obra do cineasta serviu como um dos principais materiais da TV Globo, que exibia constantemente filmes do norte-americano na Sessão da Tarde.

 

“Ele não é considerado um cineasta tão bom quanto Hitchcock ou Tarkovsky, mas ele não queria fazer filmes como Hitchcock ou Tarkovsky”, afirma Jason Diamond, autor do livro Searching John Hughes (ou, em tradução literal, Procurando John Hughes, sem edição no Brasil), ao Esquina. “Ele era um diretor único e que era amado por todos que viam os seus filmes. Por isso é um grande sucesso até hoje.”

 

Para muitos especialistas, o grande diferencial de Hughes -- e que não conseguiu ser imitado até hoje -- é a aparente simplicidade de sua obra, mas que conta com um roteiro afiado por trás e uma direção precisa. Em Clube dos Cinco, por exemplo, o diretor criou um cenário banal, na qual cinco jovens diferentes se veem numa mesma situação: a detenção escolar. No castigo, as cinco personalidade diferentes acabam se identificando e criando uma sintonia que desperta o espírito coletivo da adolescência na década de 1980.

“A simplicidade era uma marca registrada de muitos de seus filmes”, afirma Honeycutt. “Ele sempre planejou situações críveis, como um punhado de estudantes recebendo castigo num sábado após realizar uma série de infrações. Depois, ele fazia comédia sobre pessoas e não sobre situação. Isso é muito difícil. Ainda mais no caso dele, que queri falar diretamente com os jovens sem qualquer pretensão.”

 

Mudança de rumo. Um dos motivos que talvez tenha feito com que Hughes não tenha caído na graça da crítica e da imprensa foi por sua mudança de posicionamento a partir da década de 1990. Ele deixou de retratar a juventude de maneira real, delicada e sensível para investir em roteiros fracos da Disney, como os fracos Beethoven 5 e Encontros de Amor e até mesmo as bombas Esqueceram de Mim 3 e Dennis, o Pimentinha.

 

“Ele perdeu o fio da meada por algum motivo que até hoje nós desconhecemos”, diz Kirk. “Ele tem muitos filmes bregas, maçantes. De todos que fez, apenas um punhado são filmes bons. Nunca vamos entender o motivo dele ter deixado de fazer filmes sobre angústias de jovens para fazer filmes para a Disney, alguns sobre crianças e muitos sobre bichos, especialmente cães.”

 

Segundo o site IMDB, Hughes assinou o roteiro de 36 filmes, como Esqueceram de Mim, Beethoven e 101 Dálmatas. Como diretor, foram apenas oito: Gatinhas e Gatões, Clube dos Cinco, Mulher Nota 1000, Curtindo a Vida Adoidado, Antes só do que mal acompanhado, Ela Vai Ter um Bebê, Quem Vê Cara Não Vê Coração e, por último, A Malandrinha, em 1991. Depois, ele passou 18 anos sem dirigir. “Ele podia ter feito muito mais filmes”, afirma Jason. “Tinha muito potencial. Queria ver o que ele iria produzir sobre a juventude de hoje.”

 

Relâmpago. Sua carreira foi interrompida em 2009, quando ele sofreu um ataque cardíaco durante uma caminhada em Manhattan, nos Estados Unidos. Hughes tinha apenas 59 anos. Para críticos, junto com a morte do diretor, foi o espírito dos anos 1980. Afinal, nunca mais se viu nada parecido com o que foi produzido pelo diretor nos últimos anos. Apenas algumas tentativas e homenagens.

 

 

Para Honeycutt, nenhum cineasta chega perto do que Hughes foi algum dia. “Alguns diretores pensam que são John, mas não são”, afirma o biógrafo. “Alfonso Gomez-Rejon me disse que tinha os filmes de Hughes em mente quando fez Eu, Você e a Garota que Vai Morrer. Judd Apatow (O Virgem de 40 Anos) e Kevin Smith (Barrados no Baile) também falam que se inspiram nele. Mas não vejo John Hughes quando assisto esses filmes. Afinal Hollywood nem sequer faz filmes como o dele, de baixo e médio orçamento destinados a adolescentes. Tudo agora vem dos quadrinhos.”

 

 

Jason Diamond, enquanto isso, é menos crítico em relação ao que é feito atualmente com base na obra de Hughes. “Nenhum chega perto do que Hughes fez”, diz o jornalista. “Mas eu acho que Rick Famuyiwa fez um ótimo trabalho com Um Deslize Perigoso. E também temos bons escritores, como Rainbow Rowell e John Green.”

 

Não é preciso, no entanto, alguém para substituir John Hughes e sua obra. Apesar de ser um retrato dos anos 1980, ela não ficou datada. Pelo contrário, continua assustadoramente atual. “Se tirarmos a música e a vestimenta, todas as histórias podem acontecer hoje em dia”, diz Honeycutt. “A obra de Hughes não está datada e, acredito, nunca ficará. Afinal, ele não só retratou o espírito dos anos 1980. Ele retratou o espírito dos jovens. E isso nunca deve e nunca pode ser alterado. É eterno.”

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