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  • Bárbara Zago e Matheus Mans

Além do suicídio, ‘13 Reasons Why’ enfrenta problemas sociais


Quem nunca escutou que “bullying forma caráter” ou que um insulto machista nada mais é do que um “elogio que a mulher não soube aceitar”? A nova série original da Netflix, 13 Reasons Why, traz à luz esse tipo de pensamento por meio da história de uma adolescente que comete suicídio e expõe em antigas fitas cassetes os 13 motivos que a levaram a tirar a sua própria vida -- ecoando em filmes como As Vantagens de Ser Invisível e até mesmo na esquecida série Degrassi.

Mais importante do que o suicídio em si, no entanto, é expor como algumas violências são tão naturalizadas a ponto de qualquer um reconhecer vivências pessoais ao assistir aos episódios. Há quem diga que a série não retratou bem a possível depressão da protagonista ou até mesmo que não abordou um assunto tão delicado como o suicídio de maneira decente. É preciso perceber, porém, que não é este o ponto de 13 Reasons Why.

O ato da personagem principal, Hannah Baker, serve, na verdade, para mostrar como alguns comportamentos podem influenciar de maneira extrema a vida de um adolescente. E alguns deles são tão comuns que passaram, ou ainda passam, despercebidos aos nossos olhos — mas que, ainda assim, causam dor em quem os sofre, independente do tipo de agressão que é feita.

É uma discussão tão pertinente que nem mesmo os defeitos da série atrapalham. A péssima maquiagem, as falas de efeito, o excesso de episódios e algumas atuações risíveis, como do personagem Alex (Miles Heizer) e de Courtney Crimsen (Michele Selene Ang), não tornam a série decepcionante e nem invalidam a questão -- afinal, é uma série sobre adolescentes e feita com adolescentes, tornando impossível a tarefa de não ter atores iniciantes e ainda pouco inspirados.

Interessante notar, porém, é que a série é sobre adolescentes, mas, ao mesmo tempo, não é teen. Fica claro na produção como o comportamento de um adulto se difere de um adolescente, pois este ainda está passando por uma fase de busca de identidade, em que é comum enfrentar períodos de rebeldia. A maneira como a mesma violência recai sobre cada indivíduo, dependendo de sua faixa etária, varia da água para o vinho.

Um exemplo evidente disso seria a questão da reputação, presente em todos os episódios, em que Hannah constantemente preocupa-se em relação a sua imagem na escola. Isso acontece porque o pensamento adolescente, segundo estudo feitos por Jean Piaget, possui uma característica chamada egocentrismo, em que o jovem só consegue enxergar a partir de sua perspectiva. Ele acha que todos ao seu redor estão preocupados com ele. É comum um desentendimento com os pais quando, por exemplo, aconselham seus filhos a não darem tanta importância para o que os outros pensam.

A repercussão da série se dá, provavelmente, pelo fato de muitos passarem por aquelas situações, ou terem passado em algum momento da vida. Violências no Ensino Médio, que é um período essencial de formação de um jovem, causam consequências que nem sempre têm finais felizes — como no caso de Hannah. É importante que a série sirva para trazer uma mudança, seja para diminuir esse tipo de comportamento ou para atentar sobre aqueles que não dão sua devida importância.