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  • Matheus Mans

Crítica: 'Até que a Morte nos Separe', na Netflix, é importante série criminal


Recentemente, a série Investigação Criminal, disponível na Netflix, ganhou a atenção do público ao contar detalhes de alguns famosos crimes brasileiros. Aqui no Esquina, elogiamos a produção, apesar de seus problemas técnicos. Agora, chega ao catálogo do serviço de streaming mais uma série sobre esta complexa temática, mas com um foco mais importante, atual e preciso: os crimes passionais brasileiros. Com o curioso nome de Até que a Morte nos Separe, a produção de 2012 vai de maneira direta, e bem conduzida, ao anais das páginas criminais brasileiras e revela detalhes surpreendentes.

Na Netflix, o espectador já pode encontrar duas temporadas da produção, totalizando 10 episódios. E a curadoria temática é interessante. Usando o crime passional como fio condutor, o diretor Eduardo Rajabaly passeia por todas as possibilidades. Há episódios de casos conhecidos, como do goleiro Bruno e do sequestrado da jovem Eloá, outros que já começam a ficar amarelados na memória do público pelo passar do tempo, como do promotor de justiças, que abre a 1ª temporada; e do político que enterrou a mulher viva.

Não é fácil de assistir a produção, porém. Com um ar documental mais completo e interessante do que Investigação Criminal, a produção de Rajabaly traz entrevistados que saem do comum. Há psiquiatras, promotores, advogados, parentes da vitima e do criminoso e, por vez ou outra, até mesmo o acusado/assassino. Há uma frieza nos atos praticados, evidenciados pela edição rápida e seca, que deixam tudo ainda mais desconfortável -- num bom sentido, pensando no aspecto geral dessa série nacional.

O roteiro também é inteligente e bem montado. Ao invés de entregar as coisas de maneira atropelada e sem cuidado narrativo, Até que a Morte nos Separe se preocupa em montar um suspense ao redor da história para, assim, deixar o espectador preso ao que está sendo contado. A surpresa com o desenrolar, por mais previsível que seja, ajuda num outro ponto importante: trazer reflexão para aquele crime. Por qual motivo ele foi cometido? Como isso pode acontecer? Quem pode praticar? São questões fortes, levantadas naturalmente pelo decorrer das histórias, e que surtem efeito social.

Pensando desse ponto, alguns episódios chamam mais a atenção que outros. O que conta a tragédia envolvendo Eliza Samudio, morta pelo goleiro Bruno e por seus comparsas, traz interessantes questionamentos sobre fama, poder, dinheiro e força da justiça perante a opinião pública. O mesmo vale para o de Eloá, trazendo importantes questionamentos sobre a ineficiência da polícia em alguns casos e o papel da imprensa. O mais forte -- e controverso -- é o que abre a segunda temporada, mostrando o crime cometido por um palhaço. A produção não só conseguiu entrevistar o criminoso, como mostrou como sua narrativa não fazia sentido perante os fatos. Episódio essencial.

Vale destacar, também, que pequenos aspectos técnicos, que poderiam passar batidos numa avaliação superficial, também ajudam a compor o clima geral da produção. A narração da primeira temporada, feita pelo saudoso Luís Carlos Miele, traz personalidade para a produção e uma elegância interessante. A atriz Lorena Calabria, enquanto isso, fica com a narração da segunda temporada. Faz mais sentido para o que a série se propõe a contar, mas perde um pouco o impacto da voz. Fica mais genérica.

A abertura da série, assim como a música principal, também ajudam a criar o clima e a fazer o espectador entender a força por trás daquelas histórias que estão sendo contadas. Além de mostrar a preocupação em produzir mais do que um 'enlatado'.

Até que a Morte nos Separe é uma boa surpresa escondida na Netflix. Forte, atual e necessária, a produção traz histórias que, por mais dolorosas que sejam, não podem ser esquecidas. Afinal, a sociedade só pode evitar que elas se repitam se forem relembradas e refletidas. A série, sem dúvidas, começa com um bom pontapé.