• Matheus Mans

Crítica: 'B.O.' é divertida comédia sobre cinema de guerrilha


Algum cineasta, que não consigo recordar o nome, disse certa vez que fazer cinema não é humano, não é natural. Pelo contrário: os desafios são tão grandes no set de filmagem que desafiam a lógica das coisas. Agora, imagine fazer um filme quase sem recursos, contando apenas com a boa vontade dos outros profissionais ligados ao projeto. Com certeza, não é algo fácil. É esse bastidor que busca retratar a boa comédia nacional B.O., dirigida pelos cineastas Daniel Belmonte e Pedro Cadore, e que estreia nesta quinta, 9.

A trama acompanha, justamente, a jornada de filmagem de um filme B.O. -- isto é, na gíria do mercado, um filme de baixo orçamento. Comandando essa história estão os frustrados Pedro (o próprio Belmonte) e Fabrício (André Pellegrino), dois cineastas que não conseguem emplacar a produção que tanto sonham. Para provar que tem talento, principalmente para os pais e para um produtor ganancioso (Nelson Freitas), a dupla une forças com o amigo Amaral (George Sauma) e faz o próprio filme. Um B.O., claro.

O mais divertido do filme, que conta com duração de 75 minutos, é o aspecto non sense que ronda toda a narrativa. Cheio de provocações, o texto de B.O. mostra os colegas tentando acertar a fórmula de um drama digno de festival. E não de qualquer um, não. Coisa de Cannes pra cima. Para isso, enfiam um cego com câncer terminal, uma tragédia na infância, irmãos que não se falam e, claro, um youtuber com mais de 5 milhões de inscritos e que não tem talento algum. E uma equipe afinada, mas estranha.

Os vinte minutos iniciais e os vinte minuto finais dessa história são absolutamente hilários. A forma como o filme é realizado, e como é concluído, mostram um pouco dos dramas do cinema "de guerrilha". São egos que precisam ser domados, prazos que não são cumpridos, rixas que são travadas, condições de trabalho péssimas. Críticas por aí dizem que o filme não causa reflexão, que falta se aprofundar mais nos processos de editais e festivais (bah, que chatice!). E há reflexão maior do que esse bastidor na tela?

Belmonte está divertidíssimo como um diretor que perde o controle de sua criação. É bem real, e desesperador. Os destaques, porém, são os ótimos Eduardo Speroni (O Sétimo Guardião), George Sauma (Rasga Coração) e Hernane Cardoso (Voluntários 343). O trio é alma cômica do filme, gerando as cenas mais bizarras e divertidas de B.O. Speroni, principalmente, está ótimo como um ator que entra no personagem e não consegue sair -- um Daniel Day Lewis tupiniquim. Divertidíssimo, dá pra rir muito.

No entanto, entre os vinte minutos iniciais e os vinte minutos finais, há um período de 35 minutos que é bom, mas não chega aos pés do que o filme se mostra capaz. O processo de filmagem não é tão espirituoso quanto outros filmes que já se arriscaram nessa seara, como o ótimo O Artista do Desastre. Falta um tiquinho a mais de humor ali para o filme ser coeso por inteiro. Aquela chatice de dizer que falta reflexão de processos de editais e festivais, também poderia ser diluída ali, agradando a gregos e troianos.

A direção, porém, é criativa ao trazer algumas provocações à baila durante a história. A mudança de gênero cinematográfico (seja no começo, como no final); alguns desafios técnicos como a equipe do som e o uso de GoPro pelo fotógrafo. São bons momentos, que podem não fazer muito sentido para o público em geral, mas que ajuda a fazer com que a imersão nesse bastidor seja mais interessante e, claro, real. Tudo ali ajuda.

Mas esse meio, porém, não reduz a qualidade cômica de B.O., que parece um parente distante do já clássico Saneamento Básico. É divertido, criativo, provoca uma reflexão sobre os meandros e os bastidores do cinema -- não só no Brasil, mas no mundo todo. Vale a pena assistir para dar umas boas risadas numa história ágil e bem divertida.