• Matheus Mans

Crítica: 'Bom Comportamento' traz novo olhar sobre filmes de perseguição


Esqueça o nome traduzido, Bom Comportamento. O título original do novo filme dos irmãos Safdie é Good Time. Bom tempo, em uma tradução literal, sem questionamentos. E é sobre isso que o longa-metragem quer falar. Tempo. Num thriller que tem tudo para ser um novo clássico cult daqui alguns anos, conhecemos novamente histórias de personagens que são marginais. Desta vez, porém, muito mais humanos, interessantes e impactantes do que em outras histórias dos diretores.

Num rápido resumo da trama: acompanhamos a vida dos irmãos Connie (Robert Pattinson, de Crepúsculo) e Nick (Benny Safdie, que também faz as vezes de diretor). Connie é viciado em drogas, um criminoso de pequenos delitos. Marginal de sua própria vida. Enquanto isso, Nick tem algum problema mental que o impede de tomar decisões próprias. Como em uma espécie de adoração, ele só tem ouvidos aos seu irmão e, por isso, acaba tomando algumas decisões erradas.

Uma delas é a que dá a tônica ao longa: um assalto frustrado à um banco. É a partir desta premissa que Benny e John Safdie constroem uma trama intrincada de gato-e-rato repleta de drama, visual underground e com um humor peculiar que beira uma comédia de erros dos irmãos Coen. Para isso, os Safdie conseguem acertar no tom de todos elementos que compõem a trama. O primeiro e mais visível acerto são os atores escalados para viverem os personagens.

Robert Pattinson mostra que não é mais o bizarro vampiro brilhante de Crepúsculo. Se você tinha dúvidas sobre sua capacidade após os bons The Rover e Z: A Cidade Perdida, corra pra ver Good Time. Aqui, ele cria um personagem sempre atento ao redor, de olhos vidrados por conta do uso abusivo de entorpecentes. E faz um trabalho muito difícil de preencher lacunas propositais do roteiro por meio das expressões faciais e uma intensa interpretação ao longo da história. É surpreendente.

Já Benny Safdie faz um tipo mais contido, mas com momentos marcantes em tela -- mesmo aparecendo bem menos do que Pattinson. O diretor/ator convence como o personagem que não entende pelo que está passando, pontuando forte sofrimento em sua atuação. Jennifer Jason Leigh (Atypical) e o ótimo Barkhad Abdi (Capitão Philips) aparecem muito pouco para qualquer tipo de avaliação. Estão mais para participações especiais do que para integrantes do elenco em si.

Quanto aos aspectos mais técnicos de cinema, os Safdie mostram que chegaram para ficar na cena independente de Hollywood. O roteiro -- assinado por Josh e por Ronald Bronstein, parceiro fiel da dupla -- dá urgência aos acontecimentos na tela mesmo não recorrendo à maioria dos clichês deste gênero. O tempo aqui urge por vermos a degradação humana e a inconsistência dos atos dos personagens. É um desespero bem mais intenso do que vielas sem saídas ou perseguições alucinadas de carros.

Isso também é mérito da direção de Benny e Josh. Depois das histórias boas, mas efusivas de Amor, Drogas e Nova York e Go Get Some Rosemary, os dois cineasta mergulham de vez no submundo das drogas e dos personagens marginalizados, sem espaço para vitimização. É a realidade nua e crua, acompanhada ainda de uma intensa palheta de cores neon -- que fica entre o vermelho e o azul --, uma câmera na mão extremamente natural e uma trilha sonora inesquecível.

Ao final da projeção, quando sobem os créditos, volta o questionamento ao tempo, ao que é fugaz em nossas vidas. Afinal, por meio de um thriller que não para um minuto de se mover, de correr e de mudar, encontramos personagens mundanos, marginalizados, que tentam e sofrem por buscar um lugar no mundo. São personagens parados no tempo de suas vidas e que tentam se mover. No entanto, ao contrário do filme, eles não possuem fôlego, não tem a força necessária.

Você sai exausto da projeção. Os personagens saem exaustos de suas vidas. E, no final, só o filme se moveu.

EXCELENTE