• Matheus Mans

Crítica: 'Elite' é mar de clichês, mas que agrada e provoca


Numa primeira vista, Elite parece uma cópia descarada da novela mexicana Rebelde. O uniforme, por exemplo, conta com poucas diferenças entre uma produção e outra e a estrutura geral -- de se passar quase toda numa escola e de escancarar os problemas dos estudantes -- também está presente. Mas as semelhanças param por aí: a produção original espanhola da Netflix, ainda que mergulhada em clichês e generalidades, acerta com um tom ousado que passeia entre crítica social e os dramas humanos e sensíveis.

A história da primeira temporada começa com uma tragédia: um terremoto destrói uma escola e vários estudantes ficam sem ter para onde ir. Três adolescentes da classe operária, então, acabam sendo recolocados num colégio da elite e, assim, passam a ter a necessidade de lidar com o preconceito naquele ambiente. A atmosfera carregada é tanto que um estudante acaba assassinado. O que aconteceu? Como isso se sucedeu?

São essas perguntas que norteiam a produção, comandada pela dupla Dani de la Orden (Barcelona, Uma Noite de Inverno) e Ramón Salazar (O Vazio de Domingo). Os clichês, como a maioria das histórias que se passam em escolas, saltam da tela: a garota bonita e malvada; as patricinhas que andam juntas no corredor; o valentão grandão; e por aí vai. Infelizmente, poucos deles são desconstruídos de fato, já que a narrativa não sabe se aproveitar dos próprios espaços que cria na trama. Falta esperteza na condução.

No entanto, ao contrário do esperado, Elite não morre na superfície. Mesmo com esse mar de clichês, a série espanhola consegue tocar em assuntos delicados e provoca. A questão do bullying com alunos pobres e bolsistas é bem retratada, assim como a xenofobia envolvendo a personagem Nadia (Mina El Hammani). O assassinato que permeia a trama, ainda que usado apenas para instigar e criar uma atmosfera a la How To Get Away With A Murder, também traz temas provocativos, como o abuso policial.

A discussão também não é deixada escondida, sendo trazida à tona diversas vezes. É importante que produções com tamanho alcance possam questionar e problematizar tais comportamentos. Afinal, são as artes, em sua maioria, que mudam o status quo. Não é nenhuma Merlí, é claro, que filosofa e vai além. Mas já cumpre um bom papel.

Nesse sentido, Elite acaba surpreendendo e mostrando que é muito mais do que parece. O elenco, formado por nomes como Jaime Lorente , María Pedraza e Miguel Herrán (todos de La Casa de Papel), ainda que velho demais para o papel proposto, também acerta na condução da história e intensifica o que é contado. O drama nunca ultrapassa a barreira do aceitável e não se torna o melodrama insosso que 13 Reasons Why, por exemplo, apresentou na segunda temporada. Tudo isso, de certa forma, funciona.

Assim, Elite é uma série repleta de generalidades, mas que tem um bom escopo narrativo, um bom desenvolvimento de personagem e provoca com situações reais e de grande problemática social. Há, sim, clichês ambulantes e até um certo exagero nas cenas de sexo -- sim, não é uma novela Rebelde que pode ser assistida tranquilamente com a família. Mas, no geral, é um bom acerto da Netflix e que deve criar público cativo.

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