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  • João Pedro Yazaki

Crítica: 'Espíritos Obscuros' é terror macabro que desperdiça o bom potencial


Enquanto o gênero de terror slasher vem perdendo espaço, o terror psicológico está cada vez mais presente. Filmes como Midsommar e O Farol vem causando muito mais impacto do que os recentes lançamentos de Halloween Kills e Invocação do Mal 3. Sendo assim, muitas produções estão mesclando essas duas abordagens, a fim de tentar atrair o máximo de espectadores. Dois bons exemplos desse experimento foram Nós, de 2018, e o recente Candyman, que além de trazerem temáticas provocativas, propuseram cenas intensas de horror.


Essa é a proposta de Espíritos Obscuros, o novo filme de Scott Cooper com a produção do conceituado Guillermo del Toro. O longa-metragem, que estreia nesta quinta, 28, nos mostra uma jovem professora do ensino fundamental, Julia (Keri Russell), descobrindo que um de seus alunos, Lucas (Jeremy Thomas), possui um terrível segredo sobrenatural envolvendo seu pai e irmão mais novo. Junto ao xerife da cidade e irmão, Paul (Jesse Plemons), Julia decide investigar seu aluno enquanto lida com traumas do passado.


O filme começa com Lucas esperando seu pai e um colega de trabalho a saírem de uma mina deserta, que aparentemente estava sendo utilizada para fabricação de drogas. Porém, um ser misterioso entra no local. Uma luta acontece, vemos o colega morrer e a cena é cortada para 3 semanas depois, onde Jules dá sua aula com Lucas presente, porém o garoto está diferente. Muitas dúvidas surgem a partir daí. Quem é a tal da criatura demoníaca, o que aconteceu com o pai de Lucas e por que o menino se comporta de forma tão perturbadora?


Ao longo do primeiro ato, vai se criando uma atmosfera bem interessante. Somos apresentados a alguns comportamentos macabros de Lucas que incomodam e intrigam. Vemos muitos sinais de abuso por parte de alguém em sua casa, mas, no começo, não sabemos quem o pratica. Simultaneamente, somos apresentados a Jules, alguém que sofreu muito na infância e quer encontrar uma forma de recomeçar a vida após a morte dos pais. Com certeza, o ponto forte de Espíritos Obscuros está nos protagonistas e os terrores que os cercam, que causam diversos sentimentos incômodos.

Infelizmente, essa pegada introspectiva não se sustenta nem até a metade do filme. Tem muito espaço para explorar o terror psicológico, desafiador, porém se limita em seguir o caminho mais fácil. A história não é ruim, pelo contrário, mas faltou ousadia na execução. Embora seja um filme que causa curiosidade, ele se aventura pouco em tudo o que oferece, deixando sempre a sensação de que algo está faltando.


A parte mística, uma peça-chave do enredo, não possui a devida atenção. O mito por trás da assombração sobrenatural é explicado da forma mais simples possível, sem qualquer preocupação em atrair o público. Conhecemos sua história através de um personagem descartável, cuja única função é ficar explicando didaticamente quem é a figura demoníaca que anda causando problemas.


Sendo assim, somos levados a uma conclusão completamente genérica, deixando de lado todo o desenvolvimento inicial e parte para o mesmo caminho formulaico que conhecemos atualmente. Na medida em que o filme vai ganhando proporções maiores, tudo o que o tornava interessante deixa de existir. A violência psicológica, o macabro, o desconfortável deixam de existir e passam a ser meros efeitos visuais em cenas de ação breves.


Espíritos Obscuros começa muito bem nos mostrando as angústias internas e externas dos protagonistas, com um enredo que, até certo ponto, é bem desconcertante. Contudo, faltou o diretor se aventurar na própria proposta. Pela falta de profundidade e ousadia, o macabro introspectivo perde espaço para a violência exagerada, gerando em um final bem qualquer coisa. A tentativa de mesclar o psicológico com o slasher acabou saindo pela culatra. Uma grande pena, porque deu para perceber o grande potencial escondido. Imagine se fosse o Guillermo del Toro assumindo a direção de vez.


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