• Matheus Mans

Crítica: novos episódios de Pica-Pau são nostálgicos, apesar de erros


Por diversos motivos, a série de animação Pica-Pau se consagrou como um dos desenhos mais queridos e celebrados de todos os tempos. Afinal, o protagonista, um pica-pau com corpo de humano, é desbocado, irônico e não teme nada. Enfrenta os outros ao seu redor com uma serenidade ímpar. Além disso, ele protagonizou alguns dos momentos mais marcantes da televisão universal no século XX, como a queda em uma cachoeira enquanto pessoas com capa de chuva celebravam. É um marco.

Por isso, é arriscada a estratégia da Universal em resgatar o personagem em dez episódios inéditos -- e com uma nova roupagem -- para uma série de animação disponibilizada no YouTube. Com duração de seis minutos, em média, a nova leva de histórias do Pica-Pau causa um misto de sensações num primeiro momento. A técnica de animação, que usa o mesmo software de Irmão do Jorel e afins, parece dar uma característica uniforme ao desenho, não causando a mesma diferenciação de antes.

Mas isso, sem dúvidas, é reclamação dos que acompanhavam o desenho clássico. E, infelizmente, não é este o público-alvo série. Há problemas claros na criação dos personagens, como a anatomia estranha de Zeca Urubu, mas isso não deve ser um incomodo para os pequenos que estarão entrando em contato, pela primeira vez, com o pica-pau e seus "amigos". É, infelizmente, os traços que fazem sucesso e que, sem dúvidas, deve ter seus benefícios. Difícil de enxergar para os mais velhos, porém.

Agora, sobre a história dos 10 episódios: é surpreendentemente boa. Não há nada de muito manso no Pica-Pau, ao contrário de desenhos do personagem dos anos 2000. Ele continua pregando peças e, em alguns momentos, é até violento -- como numa cena clássica em que ele explode um canhão no rosto do Zeca Urubu. É divertido ver que essa sagacidade do desenho não se apagou -- o que deve, de alguma forma, compensar a animação e animar antigos fãs. Picolino continua tendo seus bons momentos também.

Dentre os 10 episódios, um é o grande destaque: o divertido e criativo A Vingança Vem á Caneta. Nele, há uma inesperada quebra da quarta-parede. O Pica-Pau sai de seu cenário clássico e se comporta como uma grande estrela. Zeca Urubu, contrariado, sai da animação, toma posse da caneta do animador e começa a infernizar a vida do pássaro azul e vermelho. O final do episódio tem uma mudança brusca e é muito divertido, mostrando que a essência do desenho continua viva -- ao contrário da nova animação do Popeye, que trocou o cachimbo por apito e o Brutus, sem motivo, perdeu a barba.

Destaque, também, para A Batalha pelo Último Presente, que lembra um clássico episódio de O Laboratório de Dexter, e para Caça aos Ovos de Páscoa, que coloca todos os personagens clássicos da animação numa busca desenfreada por pequenos ovos.

Os novos episódios do Pica-Pau, assim, são histórias prontas para as novas gerações, que vão começar a conhecer melhor as desventuras do pássaro. Os fãs antigos estão com todos os episódios clássicos à disposição e, por isso, não podem reclamar. O alvo, aqui, são os pequenos. Mas ainda há material para se divertir, como as bizarrices cometidas pelo pássaro, algumas atitudes incabíveis e a eterna risada, que abre cada um dos episódios e pontua algumas das principais piadas. Uma boa dose de nostalgia e, apesar de alguns errinhos, uma boa retomada do clássico para novas gerações.

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