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  • Matheus Mans

Crítica: 'O Novelo' é delicado drama familiar com a cara do Brasil


Você já parou para pensar na metáfora visual que surge de um novelo de lã? Ele é um emaranhado de fios, embolados numa forma pouco coerente. Aos poucos, porém, vamos dando pontos, desfazendo esse emaranhado. Do outro lado da agulha de tricô, enquanto isso, vamos dando forma -- seja qual peça for. Com o tempo, os nós vão desatando. E a união fica mais clara.


E é justamente isso que podemos assistir enquanto assistimos O Novelo, filme dirigido pela estreante em longas Cláudia Pinheiro. No começo, sabemos a forma do filme: alguns irmãos que estão espalhados pelo mundo, cada um com seus problemas e desafios. Aos poucos, porém, vamos entendendo o caminho deles e, principalmente, para onde esses cinco estão caminhando.


Num estilo de melodrama, podendo lembrar até mesmo histórias já vistas em novelas ou séries para a televisão, O Novelo vai trazendo aspectos e reflexões interessantes sobre o papel do homem no mundo contemporâneo. Pode até parecer algo ultrapassado neste momento em que as discussões femininas estão vindo à tona, mas Cláudia Pinheiro consegue ir além no assunto.

Ela fala sobre masculinidade tóxica, ausência parental e até mesmo a pressão da sociedade sobre a sexualidade masculina. É um emaranhado de histórias e pensamentos, tal qual um novelo de lã, mas que forma algo com sentido ao final enquanto eles esperam no hospital. Isso mesmo: eles estão num pronto-socorro para reconhecer se um homem é o pai desaparecido.


Com atuação marcante de Nando Cunha, vamos compreendendo melhor a formação desses cinco irmãos com uma história tipicamente brasileira, cheia de desafios, criação solitária e ausência de apoio para a formação dessas crianças. Cláudia Pinheiro mostra sensibilidade na hora de tratar esses assuntos, mesmo tratando das particularidades do mundo masculino.


O Novelo, assim, é uma das boas surpresas do cinema em 2021. Ainda que tenha uma gordura aqui e ali, além de algumas atuações que não encaixam tão bem e situações não tão bem resolvidas, o longa-metragem emociona e instiga o espectador a pensar melhor sobre a masculinidade tóxica que surge nas coisas -- e como temos instrumentos para acabar com isso.


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