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  • Matheus Mans

Crítica: 'Super Drags' é animação divertida, ainda que muito 'nichada'


Super Drags já chegou rodeada de acusações. Algumas pessoas, inconformadas pelo teor da animação, disseram que a série original da Netflix induzia crianças à sexualidade precoce e que drag queen não podia ser tema de desenho. O que elas se esqueceram é que a produção não é pra crianças. Assim como Festa da Salsicha, por exemplo, Super Drags é feito para o público adulto -- mais especificamente, segundo a classificação indicativa, para pessoas acima de 16 anos. Afinal, mais do que ter drags como protagonistas, a animação brasileira conta com piadas de forte cunho sexual.

No entanto, felizmente, a nova animação de Paulo Lescaut, Anderson Mahanski e Fernando Mendonça consegue ser muito maior do que esse preconceito vil e mesquinho que circulou nas redes sociais nos últimos dias. Criativa, bem-humorada e com personagens divertidíssimos, Super Drags acerta ao dar atenção para um nicho social enorme, mas pouco explorado pelo mainstream como deveria ser. Tudo isso, é claro, com muito respeito, admiração e criatividade a partir da própria cultura das drags e do meio LBGT.

Na história, composta por cinco capítulos de 25 minutos cada, conta-se a jornada de Patrick, Donizete e Ralph, três amigos gays que, de vez em quando, se transformam nas heroínas drag queens Lemon Chifon, Scarlet Carmesim e Safira Cyan. Cada uma com um superpoder, a la Meninas Superpoderosas, elas combatem vilões diversos, como homofóbicos, cantoras malvadas e outras pessoas que ameacem a liberdade das gay e das pessoas como um todo. Ou seja: é um desenho cheio de simbolismos e alegorias bem pensadas.

O grande acerto, porém, está nas personagens principais. Bem escritas e com visuais marcantes, elas conseguem criar identificação com o público -- seja ele LGBT, hétero ou o que for. Afinal, mais do que rótulos ou estereótipos, os personagens são humanos e brasileiros. É muito fácil se identificar com situações. Os criadores ainda se divertem colocando referências à cultura pop brasileira, como a Grávida de Taubaté, Ana Carolina e até uma vilã muito parecida com a Anitta, que às vezes é acusada de se aproveitar do chamado pink money.

Vale destacar, também, a dublagem: no Brasil, a série conta com Pabllo Vittar -- que já indicou 5 filmes aqui no Esquina -- cantando a música de abertura e narrando, surpreendentemente bem, a cantora Goldiva. Sérgio Cantú (Patrick), Fernando Mendonça (Donizete) e Wagner Follare (Ralph) completam esse time com dublagens divertidas e cheias de boas sacadas -- principalmente Mendonça, que ajuda a construir a personagem de Donizete de forma extremamente divertida, complexa e reluzente.

O grande problema aqui está no exagero -- que pode ter sido proposital ou não, mas que deve ser avaliado sem influências. Primeiro sobre as piadas sexuais. Há um exagero tremendo na quantidade de vezes que a série faz piadas com aparelhos reprodutores, com sexo, com ânus e por aí vai. Funciona na maioria das vezes, mas acaba cansando até os 25 minutos finais. Além disso, há um exagero -- bem intencionado, mas um exagero -- no vocabulário utilizado, muito conhecido no meio LGBT. Embuste, por exemplo, é gíria batida. Há uma infinidade de outros termos que devem deixar o público em geral boiando. Muitas piadas também acabam passando batidas. Não é pra todos, infelizmente.

Mas Super Drags, sem dúvidas, é um marco na animação brasileira. Bem-humorada, brasileira, diversa, atual, representativa. Muitos devem se incomodar -- curiosamente, porém, os mesmos que pregam um humor livre e sem amarras do politicamente correto. Mas não há motivos para dar atenção pra essa problematização sem causa. É um humor que conversa com um público sempre esquecido e que começa a ganhar força agora com produções como Pose. Merece esse espaço e merece uma produção tão interessante e divertida. Pena ter só cinco episódios. Podia ter o dobro que seria pouco.