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  • Matheus Mans

Crítica: ‘The Post’ conta com atuações incríveis, mas se perde em exageros

Atualizado: 12 de jan.


Spielberg gosta de produzir sequências informais em seus filmes. No começo da carreira, produziu três grandes filmes sobre mistérios do além com Tubarão, Contatos Imediatos de Terceiro Grau e E.T.. Depois ainda teve os longas de guerra (Schindler e Soldado Ryan) e os que brincam com o futuro (Inteligência Artificial e Minority Report). Agora, ele encerra uma trilogia informal sobre política americana, após Lincoln e Ponte dos Espiões, com The Post.

Desta vez, Spielberg conta uma história dos bastidores do jornalismo. Num tom entre Todos os Homens do Presidente e Spotlight, a trama acompanha as decisões do editor do jornal Washington Post, Ben Bradlee (Tom Hanks), e da editora-chefe e dona do jornal, Katherine Graham (Meryl Streep, excepcional), que tentam descobrir o que fazer com informações sobre o então presidente americano, Richard Nixon -- que viria a ser deposto um tempinho depois.

Num primeiro filme sobre bastidores do jornalismo, Spielberg se dá muito bem. O cineasta consegue recriar o clima tortuoso das redações com um jogo de câmera interessante, que vai acompanhando vários jornalistas pelos corredores -- além de fazer boas brincadeiras sobre as relações das redações, como o “foca” que faz o trabalho mais burocrático e sem graça dali. Além de mostrar bem o conflito entre jornalistas e empresários que comandam os jornais.

Tecnicamente, The Post também ajuda a mostrar os motivos de Spielberg ser um dos mais importantes cineastas da atualidade. A câmera passeia pelas cenas, sem fórmulas batidas, que tem sua realidade acentuada pela ótima fotografia de Janusz Kaminski -- parceiro de Spielberg desde A Lista de Schindler. Há uma frieza típica das redações, misturadas com as sombras que se avizinham pelos cantos. Há muito significado na câmera e na iluminação das cenas.

O ponto alto de The Post, porém, são as atuações. Hanks está um pouco canastrão, mas convence -- a meu ver, merecia mais a indicação ao Oscar do que Daniel Kaluuya. O elenco de apoio também conta com bons momentos e chama a atenção, principalmente Bob Odenkirk (Better Call Saul) e Bruce Greenwood (Jogo Perigoso). Mas é Meryl Streep que rouba a cena. Ela consegue conter as emoções de sua personagem em cenas incríveis. Que atriz!

Uma pena que o filme não é só feito de acertos. Há certa morosidade no ritmo da história, que demora a engrenar -- ainda que não seja tão ruim quanto em Lincoln nesse sentido. Podiam ter limpado uns 15 minutos. E os últimos momentos contam com uma sucessão de erros, seja de roteiro ou direção, que causam vergonha. Há uma cena de Streep descendo uma escadaria e um sequência na redação que não tem justificativa de existir. Spielberg errou a mão.

O longa-metragem só não termina em uma nota baixa por conta de uma conexão que faz com uma outra história americana. Fica um resultado interessante.

Ainda assim, The Post é bom -- mas não perfeito. Tem uma boa recriação das redações dos anos 1970, atuações excelentes e uma direção técnica interessante. A vergonha alheia nos momentos finais, porém, tiram a força do filme e faz com que The Post seja apenas mais uma história esquecível na filmografia de Spielberg. Definitivamente, esta trilogia informal da política americana não deu tão certo. Agora, é esperar Jogador Número Um e um Spielberg mais inspirado.

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