• Matheus Mans

Crítica: ‘The Post’ conta com atuações incríveis, mas se perde em exageros


Spielberg gosta de produzir sequências informais em seus filmes. No começo da carreira, produziu três grandes filmes sobre mistérios do além com Tubarão, Contatos Imediatos de Terceiro Grau e E.T.. Depois ainda teve os longas de guerra (Schindler e Soldado Ryan) e os que brincam com o futuro (Inteligência Artificial e Minority Report). Agora, ele encerra uma trilogia informal sobre política americana, após Lincoln e Ponte dos Espiões, com The Post.

Desta vez, Spielberg conta uma história dos bastidores do jornalismo. Num tom entre Todos os Homens do Presidente e Spotlight, a trama acompanha as decisões do editor do jornal Washington Post, Ben Bradlee (Tom Hanks), e da editora-chefe e dona do jornal, Katherine Graham (Meryl Streep, excepcional), que tentam descobrir o que fazer com informações sobre o então presidente americano, Richard Nixon -- que viria a ser deposto um tempinho depois.

Num primeiro filme sobre bastidores do jornalismo, Spielberg se dá muito bem. O cineasta consegue recriar o clima tortuoso das redações com um jogo de câmera interessante, que vai acompanhando vários jornalistas pelos corredores -- além de fazer boas brincadeiras sobre as relações das redações, como o “foca” que faz o trabalho mais burocrático e sem graça dali. Além de mostrar bem o conflito entre jornalistas e empresários que comandam os jornais.

Tecnicamente, The Post também ajuda a mostrar os motivos de Spielberg ser um dos mais importantes cineastas da atualidade. A câmera passeia pelas cenas, sem fórmulas batidas, que tem sua realidade acentuada pela ótima fotografia de Janusz Kaminski -- parceiro de Spielberg desde A Lista de Schindler. Há uma frieza típica das redações, misturadas com as sombras que se avizinham pelos cantos. Há muito significado na câmera e na iluminação das cenas.

O ponto alto de The Post, porém, são as atuações. Hanks está um pouco canastrão, mas convence -- a meu ver, merecia mais a indicação ao Oscar do que Daniel Kaluuya. O elenco de apoio também conta com bons momentos e chama a atenção, principalmente Bob Odenkirk (Better Call Saul) e Bruce Greenwood (Jogo Perigoso). Mas é Meryl Streep que rouba a cena. Ela consegue conter as emoções de sua personagem em cenas incríveis. Que atriz!

Uma pena que o filme não é só feito de acertos. Há certa morosidade no ritmo da história, que demora a engrenar -- ainda que não seja tão ruim quanto em Lincoln nesse sentido. Podiam ter limpado uns 15 minutos. E os últimos momentos contam com uma sucessão de erros, seja de roteiro ou direção, que causam vergonha. Há uma cena de Streep descendo uma escadaria e um sequência na redação que não tem justificativa de existir. Spielberg errou a mão.

O longa-metragem só não termina em uma nota baixa por conta de uma conexão que faz com uma outra história americana. Fica um resultado interessante.

Ainda assim, The Post é bom -- mas não perfeito. Tem uma boa recriação das redações dos anos 1970, atuações excelentes e uma direção técnica interessante. A vergonha alheia nos momentos finais, porém, tiram a força do filme e faz com que The Post seja apenas mais uma história esquecível na filmografia de Spielberg. Definitivamente, esta trilogia informal da política americana não deu tão certo. Agora, é esperar Jogador Número Um e um Spielberg mais inspirado.

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