• Matheus Mans

Crítica: 'Ultimato', da Netflix, é stand-up pouco coeso de Rafinha Bastos


Ainda que tenha obtido brilho próprio nos palcos de stand-up, Rafinha Bastos alcançou o sucesso absoluto quando assumiu a bancada do CQC ao lado de Marcelo Tas e Marco Luque. Foi ali que o comediante conseguiu ampliar sua imagem pelo País e mostrar que era bem mais afiado, inteligente e sem papas na língua do que o restante do elenco do programa. Não é à toa, então, que Rafinha foi o primeiro integrante a ser demitido, após a infame piada envolvendo a cantora Wanessa Camargo enquanto ainda estava grávida.

Hoje, Rafinha conta com projetos próprios, mas diversos: tem um canal no YouTube com quase 2,5 milhões de inscritos, arrisca uma carreira internacional como comediante nos EUA e, agora, ele também leva as suas apresentações de stand-up para o streaming com o espetáculo Ultimato, que acaba de estrear no catálogo oficial e global da Netflix.

Com pouco mais de uma hora de duração, o show de humor não tem uma linha narrativa central -- a não ser, é claro, a autodepreciação costumeira das apresentações de Rafinha e uma ausência de escrúpulos. Fala-se de tudo ali: desde o vício de Fábio Assunção em drogas, passando pelo caso de Ronaldo Fenômeno com travestis em São Paulo e, claro, indo até as já batidas referências à piada com Wanessa Camargo. Além, é claro, de piadas com fracassos próprios, como a ida à RedeTV! e o seu divórcio recente.

Nada disso, porém, é o bastante para destacar Ultimato das outras apresentações do comediante, como o divertidíssimo A Arte do Insulto e o polêmico Péssima Influência. A ausência de um caminho na apresentação, que vai e vem em assuntos diversos, deixa tudo muito disperso e instável. Ainda que tenha um começo muito ácido e provocativo, o show acaba ganhando contornos sem muita alma nos minutos seguintes com piadas ensaiadas sobre situações-limite, como quando teve que cumprimentar um fã sem mão.

Rafinha Bastos, como já provou em outras apresentações e no próprio CQC, funciona quando está mais livre e menos amarrado à roteiros e piadas pré-determinadas. Não é à toa que os melhores momentos de Ultimato são os mais soltos, como quando Rafinha faz um leve ofensa à Band ou quando se diverte, genuinamente, ao ouvir uma gravação automatizada pra cegos lendo uma reportagem sobre o divórcio dele e Junia Carvalho.

Há uma sequência de piadas sobre restaurantes -- indo desde o garçom que serve cupim no rodízio até os nordestinos que trabalham em restaurantes japoneses -- que parecem piadas retiradas de um almoço de família. Nada muito diferente do "é pavê ou 'pacumê'" e que ficam estranhas em um show de um comediante de expressão nacional.

Curiosamente, porém, o excesso de roteirização em algumas piadas não fornece uma coesão completa no show. Como já ressaltado, as referências e piadas vêm e vão e há pouquíssima -- ou quase nenhuma -- ligação entre os assuntos. Vai de Wanessa Camargo ao fã maneta em segundos. A arte do insulto, título de seu melhor trabalho em vídeo, é o que ainda une tudo. No entanto, falta um caminho a ser seguido por Rafinha.

É muito difícil encontrar esse tom em shows de stand-up, é claro. É preciso unir o roteiro sagaz e inteligente, que mostre como tudo que está sendo dito ali é encadeado, com piadas naturais, soltas e que façam sentido. É algo que Louis CK sempre fez muito bem em suas apresentações, por exemplo, mas que Rafinha ainda demora a acertar.

No entanto, se o espectador se livrar das amarras dessa pouca coesão e se entregar à diversão, pode ser que encontre o riso como produto final de Ultimato. Rafinha, afinal, continua sendo inteligente em suas observações e a maioria das piadas tem timing dentro desse universo confuso e sem linha narrativa que é seu espetáculo. Uma piada envolvendo uma confusão de casas, e que acaba resultado na agressão de um idoso, até questionamentos sobre o algoritmo da Netflix fazem rir de maneira genuína.

Ultimato é uma apresentação stand-up que não se destaca por ter uma linha narrativa bem construída ou por sua coesão, podendo causar desconforto e pouca diversão em quem quer rir com piadas encadeadas ou situações lógicas. Ainda assim, as boas observações de Rafinha sobre a vida ao redor e sua própria imagem ainda injetam um pouco de sagacidade ao espetáculo, fazendo com que tudo fique mais suportável e bem mais divertido. Não é um show de humor perfeito, longe disso. Mas serve para passar o tempo e fazer rir. E, afinal de contas, será que Rafinha Bastos queria mais do que isso?

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