• Matheus Mans

'Gênio Diabólico', série da Netflix, traz história assustadora à tela


Um grande potencializador do medo causado em filmes de terror ou suspense é a frase "baseado em fatos reais". Muitas vezes, não quer dizer nada -- como em Invocação do Mal ou Anabelle -- e, em outras oportunidades, ela causa uma série de questionamentos, como em O Exorcista. Mas pior ainda é quando uma história tenebrosa e sádica salta da ficção e cai nos braços do documentário, dando um medo genuíno na audiência.

É o caso da série documental de quatro episódios Gênio Diabólico, já disponível na Netflix. Enquanto produz só bombas na ficção, como Barraca do Beijo e Anon, o serviço de streaming está indo de vento em popa quando o assunto é documentários. Aqui, uma história bizarra -- para dizer o mínimo -- ganha as telas com ares de superprodução e um ritmo instigador, que faz com que a audiência consuma as 3h de conteúdo numa tacada só.

O ano é 2003, EUA. Um homem, quase na casa dos 50 anos, entra num banco com uma protuberância no pescoço e uma estranha bengala. Logo ele entrega um recado para a atendente anunciando o assalto. As coisas se desenrolam, mas depois vem o intrigante: a protuberância, na verdade, é um colar-bomba. E a bengala é uma estranha e funcional arma. O homem parece não entender bem o que acontece. E aí, simplesmente, ele explode.

A partir daí, a série documental começa a explorar o que há por trás do misterioso caso do "pizza bomber", como veio a ser chamado -- já que o assaltante era um entregador de pizza, na verdade. Ele estava por trás do roubo? Ou era a vítima? Sabia que a bomba era real? O que era pra ele fazer? O que era a "caça ao tesouro" que ele deveria cumprir pra se livrar dos explosivos?

São essas questões que são respondidas -- ou, pelo menos, tentam ser elucidadas -- pelos especialistas ouvidos pela diretora Barbara Schroeder (do fraco Alta, Sexy, Loira). E, curiosamente, o estranho caso vai ganhando ares bem mais complexos e obscuros enquanto entra na vida de um grupo de estranhos amigos sádicos e perigosos que moravam na vizinhança.

O roteiro é bem ordenado, deixando que as diversas variantes fiquem claras na tela para ninguém se confundir. As camadas de cada um dos envolvidos no crime vai sendo revelada aos poucos, dando um contínuo gostinho de "quero mais" na audiência. Afinal, o caso toma um rumo tão assustador que é preciso saber mais sobre aqueles que aparecem na tela.

Mas o destaque mesmo fica por conta do trabalho de pesquisa e acervo. Afinal, muitos dos envolvidos já estão mortos e, para contornar essa dificuldade, Schroeder e sua impecável produção resgatam dezenas e dezenas de filmagens da polícia -- algumas são absolutamente incríveis --, entrevistas com a televisão, ligações telefônicas e até desenhos do tribunal.

Ao final, mais do que uma mera trama policial ou um documentário formulaico e baseado em talking heads, Schroeder e sua equipe conseguem entrar a fundo num dos casos criminais mais bizarros -- e nem tão conhecidos -- da história. Mentes são reveladas, planos são descobertos, entrevistas são feitas -- uma delas, aliás, até muda a visão geral que se tem desse caso até então. É um trabalho glorioso de investigação e empenho.

Só há de se destacar, porém, que alguns pontos ficam sem preenchimento. Há uma história sem aparente resolução e o tal "gênio diabólico" do título vira uma figura um tanto quanto esfumaçada quando o documentário falta com algumas revelações. E não há explicação plausível para a ausência de entrevistas com psicólogos e psiquiatras. Deixaria o filme mais complexo, levando a audiência pra dentro da psique dos seus envolvidos.

Ainda assim, Gênio Diabólico é uma baita série. Feita para ser consumida de uma vez só, ela mostra detalhes de investigações criminais e como funcionou um dos crimes mais sádicos dos Estados Unidos.

E cadê o filme baseado nessa história? É uma história de ficção pronta e feita para chocar.

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