• por Matheus Mans

Irregular e errático, 'Jackie' falha ao tentar criar relato definitivo

Atualizado: 12 de Dez de 2019


John F. Kennedy estava atravessando uma avenida em Dallas, no Texas, quando o inesperado aconteceu: uma bala atingiu sua cabeça. Foi uma comoção internacional e o crime despertou grande interesse: já foi contado sob o ponto de vista dos médicos (o fraco Parkland), do ponto de vista dos investigadores (o ótimo JFK - A Pergunta que não quer calar) e até com uma reconstituição do que aconteceria se Kennedy sobrevivesse (na incrível minissérie 11.22.63). Agora, chegou a vez de ver a história sob a ótica de quem mais conhecia Kennedy: sua esposa, Jackie.

No filme Jackie, do chileno Pablo Larraín, acompanhamos a vida da ex-primeira dama dos EUA (Natalie Portman) logo após o assassinato de Kennedy. Na tela, vemos o luto misturado com a necessidade de se mostrar forte para filhos e cidadãos. Vemos uma mulher confusa entre a religião e a descrença. Entre o ódio e o medo. De maneira errática, ela tenta lidar com todas as complicações políticas que a morte de seu marido causou. Afinal, ela não pode ser apenas uma mulher em luto. Ela tem que ser a mulher que dirá ao País que tudo está bem.

Para este retrato de uma mulher com emoções divididas, Natalie Portman é certeira. Apesar de ficar no limite do caricato por conta de seu sotaque desmedido, a atriz encarna a ex-primeira dama e toma conta do filme com o olhar. Com intenso close-ups, entramos na alma de Jacqueline Kennedy e entendemos os seus problemas. Natalie Portman está divina. É uma daquelas interpretações de personagens reais que são raras e belíssimas de se ver -- ela entra numa lista com as atuações históricas como Philip Seymour Hoffman em Capote, Daniel Day-Lewis em Lincoln, e Marion Cottilard em Piaf.

Apesar da carga interpretativa de Portman, o filme acaba esfumaçando um pouco de sua atuação com um roteiro perdido. Na tentativa de criar uma narrativa disfuncional -- que não tem, necessariamente, um começo e fim delimitados -- o filme erra. Larraín, que está em seu primeiro grande trabalho para a indústria de Hollywood, parece querer mostrar trabalho.


No final, no entanto, temos apenas momentos irregulares e que tentam, desesperadamente, criar uma atmosfera embriagada do luto, na qual todos os acontecimentos se sobrepõem e falham em formar uma história coerente -- ao contrário, por exemplo, de Precisamos Falar Sobre Kevin, que usa essa técnica, mas tem um resultado positivo.

Com isso, o filme acaba tento um dos erros mais fatais do cinema: é errático. Emociona, causa impacto e tem uma história interessante. Mas a sobreposição de cenas e histórias deixa tudo confuso para quem está assistindo. Ao invés de ser um bom relato biográfico, a história se torna apenas maçante e pouco aprofundada. Na tentativa de tornar Jackie um relato definitivo sobre a ex-primeira dama, Larraín fez apenas um filme chato e esquecível.

Aliás, mais chato que o roteiro desgovernado é a trilha sonora, composta pela francesa Mica Levi (que fez a trilha de Sob a Pele). Chata e repetitiva , a música não acrescenta em nada á obra e só causa um forte desespero crescente. Em alguns momentos, queria que alguma cena terminasse apenas para a música parar. Desesperador.

Por fim, o elenco de apoio é desperdiçado: John Hurt, em um de seus últimos papéis, faz um padre sem carga dramática ou algum momento de grande emoção; Billy Crudup é apenas funcional; Greta Gerwing não brilha; e Peter Sarsgaard tem um ou dois momentos de destaque. O filme, afinal, só não é um erro total por conta de Portman, que brilha e honra a memória de Jacqueline Kennedy, que ainda precisa de um relato final e definitivo no cinema.



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