• Matheus Mans

Música 'Bella Ciao' eleva significado e força de 'La Casa de Papel'


* Atenção: o texto a seguir contém spoilers das duas partes de 'La Casa de Papel'. Se você não viu a produção e não quer spoilers, volte aqui outra hora!

"Una mattina mi son' svegliato O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao Una mattina mi son' svegliato E ho trovato l'invasor

O partigiano, portami via O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao

O partigiano, portami via Ché mi sento di morir"

Os versos acima, em italiano, não são apenas uma escolha estética para deixar a matéria mais elegante ou suntuosa. Eles são parte da canção Bella Ciao, que ficou famosa em todo o mundo após dar o tom à um dos momentos mais marcantes da produção La Casa de Papel -- que já foi assunto aqui no Esquina na primeira e segunda partes. Só que ela é mais do que apenas uma música qualquer, introduzida para dar emoção à história. Ela é um verdadeiro hino antifascista.

Para entender isso, vamos voltar para o final do século XIX. Segundo estudos, a canção teria sido originária de um canto de trabalhadoras rurais temporárias da Itália, que se deslocavam sazonalmente para as plantações de arroz da planície Padana. Depois, a melodia foi apropriada por líderes políticos durante a Primeira Guerra Mundial e, posteriormente, servindo de hino da Resistência italiana contra o Fascismo durante a Segunda Guerra Mundial.

Depois, ainda a música ganhou versões para rebeliões em 1968, foi usada como hino comunista durante algum tempo e ainda ganhou regravações em vários idiomas, indo do francês, com Manu Chao, e indo até artistas húngaros, ingleses, espanhóis, alemães, turcos e japoneses.

Ou seja: ela é mais do que uma canção altamente sonora e de melodia forte. Em sua letra, há verdadeiro símbolos contra o fascismo. "E essa será a flor da Resistência // Querida, adeus! Querida, adeus! Querida, adeus, adeus, adeus! // E essa será a flor da Resistência // Daquele que morreu pela liberdade", diz os versos finais da canção, que não tem autoria atribuída até hoje.

Deslocada assim, ela continua forte e impactante, mas é um hino vazio. Em La Casa de Papel, porém, os diretores conseguiram trazer ainda mais importância à Bella Ciao. Afinal, do que é a trama? Basicamente, é a história de um grupo de ladrões que invade a casa da moeda espanhola para fazer o máximo de dinheiro que conseguirem. Só que não é um roubo vazio de significado. Pelo contrário. O Professor, que orquestra tudo, tem motivos bem concretos.

O primeiro e mais forte é vingar a morte do pai e terminar seu plano. Além disso, o que envolve o coletivo de ladrões e os incentiva a praticar o roubo é tirar dinheiro de uma instituição que sempre está ganhando pelas beiradas e sem nunca devolver ao povo. Os bancos, o governo e as instituições financeiras são, de alguma forma, o fascismo de hoje em dia -- claro, isso sem contar os fascistas reais, que pregam absurdos contra minorias ou grupos políticos.

Assim, Bella Ciao é o hino de resistência da série. É a canção que serve como forma de expressão dos personagens -- principalmente do Professor e de Berlim, este último ainda de forma um pouco premonitória com os últimos versos -- para exponenciar o que eles queriam fazer. Eles não estavam ali no banco apenas para levar dinheiro. Era um ato de resistência. E, para isso, é preciso de símbolos e expressões artísticas que os representem audiovisualmente.

Bella Ciao, então, faz o que toda trilha sonora deve fazer em qualquer obra visual: não serve apenas de apoio, mas incrementa e engrandece o valor e o significado da produção. E a produção, em contrapartida, devolve a importância para a música, que volta a ser discutida ao redor do mundo num momento tão complexo, necessário e urgente para a sociedade.

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