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  • Matheus Mans

Nova série da Netflix expõe desigualdade racial na TV


No começo do mês, o serviço de streaming Netflix lançou novos trailers para suas produções originais. Surpreendentemente, porém, não foi Stranger Things ou as badaladas séries da Marvel que receberam maior atenção do público. O que roubou a cena foi um video curto, de apenas 30 segundos, anunciando uma nova produção original da Netflix: Dear White People (“Querida Gente Branca”, em tradução literal).

Baseada em um ótimo filme de 2014, a série ainda não tem muitas informações disponíveis, como trama e investimento. O que chamou a atenção para parte do público foram as falas de uma atriz, que aparece apenas poucos segundos na tela. “Queridas pessoas brancas, aqui está uma lista de algumas fantasias aceitáveis para o Halloween: pirata, enfermeira safada, qualquer um dos primeiros 43 presidentes americanos. No topo da lista de fantasias proibidas: eu”, afirma a atriz. Em seguida, fotos de pessoas com o rosto pintado de preto -- a chamada blackface -- aparecem no teaser da produção.

Ao invés de gerar questionamentos sobre a prática, porém, o vídeo cutucou racistas dos Estados Unidos, que começaram a promover um boicote contra o serviço de streaming. No vídeo da série no YouTube, 410 mil desaprovações contra quase 55 mil likes de usuários, se tornando o vídeo mais rejeitado na história do streaming. Nos comentários, usuários afirmam que o vídeo promove um “genocídio branco” e outros dizem que já cancelaram a assinatura.

“Podemos reconhecer que existe um problema ainda vivo nessa sociedade atual que se diz livre brigas raciais”, afirma a empreendedora e jornalista do site Blogueiras Negras, Lugana Olaiá, em entrevista ao Esquina. “A comunidade dos EUA sabe se unir contra os negros, porque entende a sua presença imposta numa série de TV como incômodo. É difícil ter que ouvir o discurso de personagens negros numa série que põe o dedo na ferida.”

Luciana Barros, gerente de projetos da organização de direitos raciais ID_BR, afirma que a série poderia ser importante para alavancar a discussão sobre racismo. “A série é de grande urgência para o debate sobre raça e racismo em diferentes espaços”, afirma Barros, em entrevista por e-mail ao Esquina. “Ela revela o sentido de um racismo institucional e o racismo velado e serviria como uma importante matéria- prima para descortinar preconceitos.”

Representatividade. Para as ativistas, a série também escancara a falta da presença de negros em produções americanas para TV -- uma questão muito discutida no cinema nos últimos anos, após a falta de indicados negros na premiação do Oscar. Afinal, ao ter uma mulher negra apontando racismo velado, as pessoas do outro lado da tela se incomodam e buscam meios para reverter a situação.

“Desde Um maluco no pedaço e Eu, a Patroa e as Crianças, o racismo está em debate de maneira sutil na TV. O assunto só foi trazido de maneira mais enfática nas séries How to get Away with Murder e Scandal, que são produções mais recentes”, afirma Lugana. “Para alguns americanos, os negros estão falando demais ao tocar em pontos sensíveis e ao fazer as pessoas repensarem seu posicionamento.”

Para Luciana, este pode ser o momento de alavancar a discussão de igualdade racial. “Nós estamos derrubando trincheiras’, afirma. “Diferentes instituições profissionais estão cada vez mais alinhadas em aprofundar seus conhecimentos sobre a questão de estereótipos do negro. Precisamos alcançar cada vez mais espaços de liderança em empresas públicas, privadas, mais investimentos na educação, sempre buscando maior engajamento social e político de todos.”