• Matheus Mans

Opinião: 'Roda Viva' tropeça como entretenimento e jornalismo


Pensei dezenas de vezes antes de escrever esse texto. E outras dezenas antes de publicá-lo. Afinal, o Brasil vive um momento tão polarizado e de ódio tão gratuito, que é até amedrontador falar sobre qualquer coisa que tenha qualquer vínculo político. E o programa Roda Viva, clássico da TV Cultura, mostrou que tem mais vínculos partidários e ideológicos do que seria possível imaginar em nossa vã consciência. E de um modo obscuro, o que é pior.

Na última segunda-feira, 25, a pré-candidata à presidência do PCdoB, Manuela D'Ávila, foi ao programa jornalístico de entrevista para ser sabatinada. Na roda, o apresentador Ricardo Lessa; as jornalistas Vera Magalhães e Letícia Casado; o filósofo e economista Joel Pinheiro da Fonseca; João Gabriel de Lima, coordenador de jornalismo do Insper; e Frederico d’Avila, diretor da Sociedade Rural Brasileira e coordenador da campanha de Jair Bolsonaro.

Aqui, não vou julgar ideias políticas expostas pelos entrevistadores e pela entrevistada. Não é minha função e o Esquina não é um site de política, ainda que a cultura seja um dos meios mais inteligentes e funcionais de se fazer a verdadeira política. Mas o fato é que o Roda Viva errou. Errou na escalação dos entrevistadores, errou na forma que conduziu a entrevista com Manuela, errou na maneira exagerada de expôr todas as suas opiniões.

Como programa de entrevistas jornalístico, o Roda Viva precisa tentar, ao máximo, manter um afastamento do tema -- no caso, a candidatura de Manuela e seus ideias políticos. É pra questionar, é pra provocar, é pra falar de dados e de constatações. Mas, de maneira nenhuma, o programa e seus entrevistadores deveriam compôr um muro ao redor da presidenciável. É conceito básico da profissão. Da aula de Conceitos Fundamentais.

E os prolemas do Roda Viva engrandeceram de maneira assustadora ao longo de seus 80 minutos. Lessa, ainda que seja mais extrovertido que Augusto Nunes, comandou um absurdo. Frederico d’Avila virou um interlocutor de Bolsonaro e de movimentos da ultra-direita, alvejando Manuela a todo o tempo. Nem Boulos, nem Ciro Gomes tiveram um tratamento como esse. E pior: em momento algum, Lessa disse da ligação dele com Bolsonaro.

A coisa foi se prolongando também aos outros entrevistadores: Vera Magalhães disse, em alto e bom som, como não considera a candidatura de Manuela; o péssimo Joel Pinheiro da Fonseca só faltava levantar uma bandeira à favor da direita; e Lessa não parava de questionar a presidenciável sobre regimes ditatoriais de outros tempos, como de Stálin e Mao -- Frederico, totalmente fora de si, dizia que o nazismo era um regime de esquerda.

Ao final do programa, grande parte dos entrevistados só faltava pegar em tochas e conclamar a morte de Manuela. Se uniram em temas polêmicos e questionáveis, como a prisão de Lula, e não permitiam que a candidata do PCdoB terminasse uma frase sequer. Uma contagem informal nas redes sociais chegou a apontar que ela foi interrompida 62 vezes. Ciro, 8. Boulos, 12. Uma disparidade absurda, fruta da péssima escolha de entrevistadores.

O Roda Viva, então, fica sem sentido como programa de TV -- já que não há entretenimento, apenas pancadaria ideológica -- e nem como mídia jornalística, já que a maioria dos seus entrevistadores veste camisas ideológicas, empunham bandeiras e saem numa caça às bruxas. É estranho e desconfortável de ver, independente de sua posição ideológica e política. Além, claro, do machismo estrutural -- Boulos e Ciro falaram à vontade.

Fica a sensação, então, de que o tradicional programa da TV Cultura se perdeu em todos os sentidos que busca algum tipo de aprofundamento. E olha que curioso: em determinado momento, Joel Pinheiro da Fonseca disse que Manuela D'Ávila fomentava o ódio nas redes ao criar polarização. Mas e o que falar do Roda Viva, a partir dessa premissa do filósofo e economista? Mais do que nas redes, o Roda Viva está polarizando em cima de uma pessoa. Desculpem-me, mas isso não é jornalismo. E, muito menos, programa de TV. É show de horrores.

#Televisão #Opinião