• Débora Fernandes

'The Ranch' é controversa, mas cresce junto aos personagens


The Ranch estreou na Netflix quando o assunto do momento era o ressurgimento de séries antigas e aclamadas – como Full House e Gilmore Girls, ambas com temporadas especiais produzidas pela gigante do streaming. De certa forma, ela também reaviva memórias de outra série que fez sucesso nos anos 1990 e 2000, trazendo em seu elenco principal Ashton Kutcher e Danny Masterson, além de participações especiais de Wilmer Valderrama, três dos protagonistas de The 70’s Show.

Por enquanto dividida em três partes – com a terceira estreando na Netflix na última sexta, 16 de junho -, The Ranch tece uma história que tem como eixo a família Bennett. Ashton interpreta Colt, o filho pródigo que retorna ao rancho em que cresceu, no Colorado, após insucessos tentando seguir a carreira de quarterback. Ali, ele precisa reconquistar a confiança de seu pai durão Beau (Sam Elliott) e seu irmão Rooster (Danny Masterson), o único filho que seguiu o ofício da família. Lentamente, ao reencontrar também Abby (Elisha Cuthbert), a namorada que marcou sua adolescência e que agora mora com outro homem, Colt passa pela sua própria trajetória tardia de amadurecimento.

Regado à muita cerveja e whisky, o roteiro é com certeza controverso. Os três homens da família Bennett lidam com seus problemas tomando garrafa atrás de garrafa de álcool, patrocinados por Maggie (Debra Winger), a mãe da família e dona de um grande bar na cidade.

A primeira temporada também repete referências incômodas sobre Colt e Rooster, ambos já passados dos 30 anos, se relacionando com garotas menores de idade, à um ponto em que a tentativa de fazer piadas que já não eram engraçadas se torna enfadonha. Aos poucos, ainda bem, elas são deixadas de lado conforme a história se aprofunda e os personagens se tornam mais interessantes.

O grande trunfo que consegue prender quem se cansa dos recursos um tanto machistas usados no tipo de comédia similar à Two and a Half Man, que compartilha de um dos mesmos produtores, é Beau. Ele é o exemplo perfeito da teoria da cebola – aquela história engraçadinha de que as pessoas possuem camadas que se revelam aos poucos. Seu exterior durão, sarcástico e insensível se revela ser apenas uma parte do personagem que, diferente de seus filhos, precisou amadurecer cedo demais após a morte do próprio pai. No fundo, ele é um homem simples do interior que se preocupa com a única constante que teve toda sua vida, o rancho da família, e que ama profundamente sua esposa, mas nunca soube demonstrar.

Maggie é o oposto do marido – apesar de compartilhar do mesmo sarcasmo que resulta em conversas ácidas e ao mesmo tempo divertidas entre ambos, a personagem é calma e bem menos rígida com seus filhos. Forte e decidida, ela acaba deixando Beau algum tempo depois de abrir seu próprio bar, se desvencilhando da vida no rancho ao procurar sua independência e autoconhecimento. Deixar Beau e o rancho é um tema frequente – Colt fez isso ao tentar sucesso no futebol americano, e Rooster recebe uma proposta de emprego tentadora em um momento crítico em que se sente pouco valorizado pelo pai.

O crescimento progressivo dos personagens é um mérito de The Ranch, fazendo com que a família e o rancho pareçam reais. O próprio rancho pode ser considerado um personagem, possibilitando cenas inusitadas e bem específicas à dinâmica da vida na fazenda, como um episódio em que os irmãos se tornam responsáveis por inseminar o rebanho. As season finales das duas partes anteriores, para quem se apegou à Beau, são de partir o coração - se tornando o principal motivo para apertar o botão do “próximo episódio”.

E se a música de abertura, um clássico country americano que clama para que as mães não deixem seus filhos se tornarem cowboys, não ficar na sua cabeça... talvez você esteja assistindo a série errada.

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